IX Cinefuturo – Parte III

Mais sobre os curtas-metragens baianos apresentação na competição do Cine Futuro.
Corpo em Chamas (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Caio Araújo

 

 

Mais um filme a colocar em questão a pulsão do corpo, a política dos movimentos, só que agora numa proposta completamente performática. Corpo em Chamas é todo ensaístico e flerta também com certa ancestralidade religiosa dos cultos afros, em busca de certa comunhão com as areias e as águas do mar.

Interessante perceber que o corpo inquieto aparece quase sempre sozinho no quadro, evocando um tempo-espaço outro. Mas em dado momento cruza o “mundo cotidiano”. Aí, essa inquietação cessa, o corpo senta, e o filme dá lugar a um olhar para o mundo ao redor com suas luzes e fachadas luminosas, hipnóticas.

Ainda que apresente essa percepção presumida (nada está tão claro em projetos assim), o curta se apega mais ao experimentalismo poético da imagem em movimento, embaralhando cenas de arquivo (há cena significativa de Terra em Transe), mas retoma ao mesmo tipo de percepção do início. O corpo parece mais vivo e pulsante em comunhão com a natureza.

 

Lapso (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Uiran Paranhos, Danilo Umbelino e Murilo Deolino

 

 

Lapso pode ser visto muito claramente como um olhar crítico e ácido sobre a crueza do mundo do trabalho, da mecanização das práticas cotidianas, uma espécie de prisão que afeta muito o psicológico, mais que o corpo físico. Porém, sua proposta é tão facilmente reconhecível e evidente logo de cara, que o efeito se dilui um pouco.

A estranheza causada pela atendente de um caixa de supermercado que, enquanto passa os produtos dos clientes, paralisa-se em plena ação, como se brincasse de estátua, é o sintoma bizarro de que algo não vai bem, que a mente já delega (ou deixa de delegar) tarefas pouco usuais.

Quando o curta investe numa proposta de horror, o olhar crítico do filme ganha outra dimensão, até mais curiosa (algo que faz lembrar o incrível curta pernambucano Mens Sana in Corpore Sana, com desdobramentos semelhantes). Uma pena que esse aspecto não seja mais explorado aqui.

 

E.T.ílico (Idem, Brasil, 2014)
Dir: José Araripe Jr. e 1berto Rodrigues

 

A impressão primeira que se tem ao ver um filme como E.T.ílico é que soa como resultado final de algum tipo de experimentação com a animação, nada mais que isso. E a impressão se confirma: os diretores o realizaram como produto final de um curso de pós-graduação de cinema de animação.

Mas o fator experimental está somente na manipulação da criação digital, uma vez que sua história tem algo mesmo de ingênuo (apesar do apelo sexual que encontramos no final da história). Trata-se de um conto de invasão alienígena. O mais estranho é que os seres de outro mundo chegam em forma de saca-rolhas, aviados por encontrar e “desvirginar” garrafas indefesas.

É um esforço interessante de animação enquanto técnica, mas como experiência fílmica passa como uma piadinha rápida, rindo sacanamente para o espectador. Não parece haver grandes pretensões nessa proposta, mas também não leva a muito lugar.

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