Graça e instinto

Relatos
Selvagens
(Relatos
Salvajes, Argentina/Espanha, 2014)
Dir:
Damián
Szifrón
Dos raros filmes argentinos que conseguem lançamento
comercial no Brasil, Relatos Selvagens é uma grata surpresa vinda
do país hermano, de cinema de tão
bons exemplares como esse. Tipo de filme de humor negro em episódios que tinha
tudo para desandar, é realmente prazeroso ver como todas as suas esquetes são
boas, sem exceção. E ainda são coesas: o que reúne histórias e personagens tão
díspares é essa veia instintiva do ser humano para a violência extrema e vingança
quando as agruras do cotidiano nos põem em prova.
Os passageiros de um voo, a recepcionista de um restaurante
vagabundo de meio de estrada, dois estranhos numa estrada deserta, todos eles
vivem seu dia de cão. Veem seu mundo se revirar de ponta cabeça por conta de
situações extremas que invadem sua rotina e inspiram ódio crescente, esse mesmo
que os faz perder a razão e libertar o que há de mais selvagens dentro de si.
O diretor e roteirista Damián Szifrón, com precisão afiada,
seja ela de encenação, seja no desenho do roteiro, surpreendente sempre que o
filme parece dar ares de que vai degringolar. O episódio do filho de família
abastada que atropela e mata vítima inocente parece apontar para esse momento
em que o dramático vai tomar conta da narrativa, mas logo revela suas facetas
cômicas e o absurdo para o qual a situação evolui. Szifrón é habilidoso porque,
para além da veia cômica, sustenta cada história do início ao filme. O
resultado final supõe um controle milimétrico de cada instante de cena, sem
forçações.

O episódio da noiva – talvez o melhor e, justamente, o escolhido para
fechar o filme – é exemplar dessa precisão. A personagem vai do ódio absoluto
ao “dane-se tudo”, situação cheia de reviravoltas e sempre imprevisível. Assim
como o segmento dos dois motoristas que se digladiam na estrada cresce em
escracho, inverte expectativas e nunca perde o ritmo até o final arrasador. 

Relatos Selvagens é a prova de como é possível narrar bem e
entreter, ser engraçado e não ofender. Consegue ainda ser um filme de dupla
leitura: pode ser visto como o retrato de uma sociedade argentina recém-saída
de uma crise financeira que deixou marcas profundas em seus cidadãos e sistemas
sociais – alguns personagens precisam lidar com a arbitrariedade e burocracia
da policia e do judiciário, a grana move o mundo; mas também é possível encarar
o filme como um belo exemplar de comédia que adquire tons nonsense, convidando ao riso. Enfim, é bom cinema.

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