Gótico caótico

Sombras da Noite (Dark Shadows,
EUA, 2012)
Dir:
Tim Burton
Mesmo
sem conhecer a novela gótica original norte-americana, sucesso na TV a partir
da década de 60, não é difícil imaginar o apreço de Tim Burton por material tão
esquisitamente grotesco. Por isso, é difícil identificar o que em Sombras da Noite é mérito da imaginação
negra do cineasta, mas o certo é que sua marca pessoal, com estilos e
preferências estéticas, estão presentes em cada minuto de filme, o tom
fantástico predominando aqui com a habitual naturalidade que Burton consegue
conceber.  
Se visualmente pesa no filme o tom dark
do todo, Sombras da Noite é, acima de
tudo, um filme super divertido. O roteiro aproveita cada momento para tirar uma
graça dos personagens, se beneficiando, em especial, do deslocamento sentido
por Barnabas Collins (Johnny Depp com os tiques de sempre), um homem do século XVIII
amaldiçoado a viver como vampiro por uma bruxa maligna (Eva Green), trancafiado
numa tumba e que acorda na década de 70. Seu contato com a nova constituição da
família Collins, seus herdeiros diretos, é a força motriz do filme.
Ao
mesmo tempo em que sua figura vampiresca inspira ondas de horror pela cidade, sua
paixão inicial pela bela Josette (agora um fantasma a rondar o casarão) inspira
novos arroubos românticos dele pela nova tutora dos Collins (Bella Heathcote). Mas é no tom cômico
que o filme parece se sobrepor ao terros e ao romanesco. Ou pelo menos é nele que está grande parte dos
acertos e melhores momentos do longa, por mais que se queira enxertá-lo de
tantas outras investidas das marcas de gêneros tão distintos.
Mas o entrave na história reside num roteiro que, ao juntar tantos personagens,
acaba por ter muitos caminhos por onde seguir, muitas subtramas a desenvolver,
traço estrutural óbvio da origem novelesca do projeto. A feiticeira de Eva
Green retorna na pele de uma empresária malévola que quer acabar com os
negócios dos Collins, e agora eliminar Barnabas também. Há a filha (Chloë Grace Moretz) surgindo como adolescente
rebelde, mas cuja personagem se perde em meio à trama, assim como o garotinho esquisito que
sente a presença da mãe morta, mas cuja história é abandonada pelo roteiro, enquanto
a médica da família (Helena Bonham Carter) parece meio deslocada, embora funcione
como gancho para uma possível continuação.   
A
partir da metade final, as tramas começam a se misturar na medida em que cada
um revela seus segredos e intrigas. Se no início funcionam muito bem como uma espécie
de uma outra família Adams, cada qual carregando suas estranhezas e bizarrices, suas tramas não se completam no filme, nem daria para ser. O roteiro, então, culmina
numa bagunça que se segue a partir dos conflitos de interesse entre os
personagens, fazendo perder o clima leve do gótico mais farsesco, preferindo o
clima dos conflitos entre os seres fantásticos e suas habilidades especiais.

Dos alívios cômicos que o filme não cansa de nos
oferecer (a piada do Mefistófeles, a participação hilária de Alice Cooper – “a
mulher mais feia” que Barnabas já viu – a empregada idosa e autista, a conversa
com os hippies à beira da fogueira), Sombras
da Noite
, na sua bagunça ingênua, na sua indecisão sobre o que quer realmente
ser enquanto produto de poucas horas para o cinema, desaponta um tanto.
Principalmente porque vem carregado da marca estilística de um cineasta que
pouco tem se reinventado. Ainda assim, tem sua competência narrativa e atmosfera
bem delimitada, mesmo que seja de fácil esquecimento.

4 thoughts on “Gótico caótico

  1. Exato, Cartazcultura. Se diverte, já tá de bom tamanho, já que se reinventar não tá sendo a preocupação do Burton.

    Carissinha, o elenco é mesmo bem bom, apesar de nenhum deles se sobressair tanto. Tenho a impressão de que se a Grace Moretz tivesse mais tempo em tela para desenvolver sua personagem, seria uma atuação mais forte.

    Leandro, a década de 90 do Burton acabou, mas ele deve achar que não, hein. Um pouco de reivenção não faria mal a ele, mas pelo menos o filme não é uma tragédia.

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