Fugindo de si

Praia
do Futuro
(Idem, Brasil/Alemanha, 2014)
Dir: Karim Aïnouz
Com exceção do personagem explosivo de Madame Satã, todos os protagonistas
seguintes dos filmes de Karim Aïnouz têm muito em comum. São pessoas melancólicas,
angustiadas com sua atual situação, aprisionado por sentimentos controversos, postas
à prova pela vida ingrata que lhes machuca e lhes causa certa inadequação de
estar no mundo (ou no seu “mundinho” – é por isso que todos eles buscam uma
forma de fuga).
É um terreno muito arenoso esse que o diretor
escolhe para desenvolver os conflitos de seus personagens porque muitas vezes
eles são de difícil apreensão. Praia do
Futuro
sofre muito com isso, na maneira como nem sempre consegue dar a
dimensão exata do que está em jogo para aquelas pessoas, exceto aquele que aparece
na terça parte do filme.
O salva-vidas Donato (Wagner Moura) falha ao impedir
que o amigo de Konrad (Clemens Schick) seja engolido pelas águas turbulentas da
praia do Futuro, em Fortaleza, onde trabalha. No entanto, ele estreita relações com Konrad e
logo passam a viver um relacionamento amoroso tórrido, embora não
necessariamente concreto.
É aí que o filme revela tipos que sofrem uma
confusão latente de sentimentos. É difícil entender o que move os personagens,
o que eles sentem de fato, muito porque nem eles mesmos parecem saber
exatamente como definir isso e como lidar com essas questões. Praia do Futuro investe na introspecção e
observa, vagarosamente, como aqueles homens vão seguindo, mesmo que tropeçando
pelo caminho e por sobre seus próprios sentimentos. Escondem-se de si e buscam
maneiras de se completarem e se entenderem na presença um do outro, mesmo que daí
saiam algumas faíscas.

A opção de se mudar para a Alemanha com Konrad surge
para Donato como forma de se afastar de uma rotina que não lhe satisfaz, não
lhe oferece segurança e que não parece o ambiente mais propício para assumir
seus desejos. A ideia de desterritorialização é uma marca muito forte no cinema
de Aïnouz. Seus personagens vivem em trânsito e a casa onde sempre viveram não é
mais um lugar de conforto, muitas vezes traz lembranças negativas. Estar longe dela é uma maneira de libertação, ainda
que os fantasmas pessoais continuem a assombrar e perseguir.
Mas esse afastamento também deixa marcas, especialmente
nos que ficam. Donato vai ter de lidar com o irmão (Jesuíta Barbosa, em fase
adulta) que chega para lhe cobrar uma posição sobre a família. É o personagem
mais bem desenhado do filme, carrega no rosto uma ira por ter sido preterido
pelo irmão mais velho tempos atrás. Não à toa uma das melhores cenas do longa
está no reencontro dos dois, um belo momento que equilibra agressão e afeto. O
personagem de Barbosa, mesmo que a seu modo rude, passa então a habitar esse
universo nebuloso em que o irmão e Konrad vivem. 

Praia do Futuro é um filme sensível, busca
no silêncio e nos olhares de seus atores a revelação dos desejos humanos, mas parece
ter uma dificuldade em comunicar para o espectador essa interioridade tão
difícil de apreender, soa moroso muitas vezes. Resolve-se melhor quando revela
de cara a vulnerabilidade de seus personagens, perdidos, indefinidos, tentando
entender a si e o que acontece ao seu redor.

2 thoughts on “Fugindo de si

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