Mostra SP: Frankie

A mudança de ares fez bem a Ira Sachs. Não que ele precisasse. Frankie, no fundo, é uma continuação muito digna do cinema de sutilezas que o diretor vem fazendo desde, pelo menos, seus dois filmes anteriores (Melhores Amigos e o ótimo O Amor é Estranho). Muito associado a um círculo independente nos Estados Unidos, agora ele vai fazer cinema indie lá em Portugal, com um elenco recheado. Tem a companhia luxuosa de Isabelle Huppert liderando uma trupe de atores muito bem equilibrados nos dramas que percorrem as dores e humores de uma família em férias na cidade de Sintra, em Portugal.

Frankie é vivida como uma mulher independente e um tanto fria por Huppert. Consegue ser adorável e também sinceramente dura com as pessoas ao redor. De certa forma, ela quis reunir naquelas férias de verão parte da família e amigos, que vão desde o filho do primeiro casamento, a filha adotiva, seu marido e a filha, o marido, o ex-marido, passando por uma amiga e seu atual namorado. Há muitos segredos em volta.

Nas terras portuguesas, em poucos dias de convívio, essa gente vai brigar, se unir e se afastar. Frankie poderia ser um filme de DRs exageradas, mas se compõe desses pequenos encontros, muitos deles decisivos para seus personagens, sem que isso ganhe proporções elevadas de drama. Enquanto a cidade de Sintra impõe majestosa sua História com a natureza em volta, os personagens experimentam essa melancolia portuguesa, sem perder o bom humor.

O roteiro do filme, assinado pelo companheiro costumaz do diretor, o brasileiro Mauricio Zacharias, equilibra justamente os conflitos pessoais com algumas doses de sarcasmo, uma leveza bem-vinda, especialmente pelo segredo que guarda a protagonista. O tom é realmente mesmo baixo. As ações dos personagens não possuem um peso maior do que elas precisam ter, e isso está presente até na interrelação entre os atores. Nem mesmo uma atriz holofote como Huppert é trabalhada a eclipsar os demais. Ao contrário, há um equilíbrio sutil que coloca a todos em pé de igualdade, mérito de um roteiro que escapa com propriedade dessa armadilha.

Brendan Gleeson e seus silêncios observadores são por demais expressivos, enquanto o desencaixe de Marisa Tomei na relação com um namorado mais velho (Greg Keaner), e encantado por ela, chega a ser terno no seu deslocamento; assim como Vinette Robinson vê seu casamento à beira do precipício, uma filha adolescente para dar conta e um marido querendo segurar as pontas.

Frankie é o tipo de filme que pode soar como algo menor, pouco pretensioso e o tipo de drama familiar que já vimos muito por aí. Mas tem uma delicadeza na maneira em compor esse coral de corações partidos que, de perto, revela uma maturidade ímpar, algo que o diretor e o roteirista já vêm trabalhando há algum tempo. Nenhum dos conflitos ali soa irrisório ou descabido, muito menos se encerram quando o filme acaba. Estão postos, sobretudo, os caminhos que desenham o destino errante dos personagens. E isso basta.

Frankie (França/Portugal, 2019)
Direção: Ira Sachs
Roteiro: Ira Sachs e Mauricio Zacharias

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