Festival do Rio – parte I

Der
Nachtmahr: Seu Pior Pesadelo
 (Der Nachtmahr, Alemanha, 2015) 
Dir:
Akiz

Visto
numa sessão de meia-noite, esse filme poderia ter clima mais assustador,
caso não mantivesse um roteiro com certas fragilidades e talvez pisasse um
pouco mais o pé no acelerador, muito embora descambe facilmente para a história
de horror com toque de bizarro. Acompanhamos a rotina da jovem Tina (Carolyn
Genzkow) e suas amigas pelas baladas psicodélicas de Berlim, luzes
estroboscópicas estourando na cara do espectador.
Algo
como alucinações começam a perturbar a personagem, especialmente com a presença
de uma criaturinha feia e estranha que só ela enxerga, ainda sem saber se é
inofensiva ou não. O filme faz pensar num estágio de loucura ou pesadelo
constante, nunca sabendo ao certo se fruto somente da cabeça perturbada da
menina ou do efeito das drogas que ela e suas amigas usam, ainda que a intenção
seja menos a de causar pavor e sim de estranheza.
O
filme brinca também com visões que prenunciam acidentes, embaralhando um pouco
os fatos, o que torna a narrativa interessante de acompanhar. No entanto, perde
força por conta de um roteiro cheio de fragilidades e saídas fáceis para certos
conflitos que a personagem precisa driblar. O diretor escorrega também ao se
preocupar mais com um visual arrojado e alucinante, com imagens de efeito que
se querem fortes – embora a do atropelamento seja muito boa –, do que com sua
história.
Green Room (Idem, EUA, 2015) 
Dir: Jeremy Saulnier

Os
personagens que formam uma banda de punk rock são apresentados no início desse
filme de forma um tanto desordenada, até certo ponto confusa também, fazendo
ver alguns conflitos e birras que existem entre os integrantes. Mal sabem –
eles e nós – que as coisas só tendem a piorar. Green Room tem uma facilidade enorme de elevar o nível de violência
e agressão a um ambiente que já tinha algo de tenso, gente mal encarada se
batendo a todo instante.
A
banda tenta fazer carreira negociando shows em bares sujos e inferninhos do
interior dos Estados Unidos. Num deles, há uma espécie de chefão (Patrick
Stewart, aqui um durão contido) que parece controlar os negócios de modo um
tanto escuso. Depois de um show não muito receptivo e com problemas em fechar o
pagamento devido, eles acabam presenciando um assassinato misterioso.
A
partir daí o filme transforma-se numa louca corrida pela sobrevivência que só
cresce em proporção de sangue derramado, pois não parece haver acordo possível.
Os personagens descobrem que é preciso lutar com as mesmas armas mortais que
seus algozes, sair vivo não é uma opção fácil.
Histórias
sanguinolentas parecem encantar o diretor Jeremy Saulnier. Seu último filme, o ótimo
Blue Ruin, já tinha esse gosto de carnificina
prenunciada, sem pena de seus personagens. Aqui não há joguinhos narrativos de
perseguição e esconde-esconde, é tudo muito seco e brutal, sem muito tempo para
respirar. Talvez por isso não seja uma brutalidade retratada com propósito de
choque, mas como algo inerente a uma situação que alcança, inevitavelmente, tal estado de perversidade.
11
minutos
 (11
Minut, Polônia/Irlanda, 2015) 
Dir:
Jerzy Skolimowski

Quando se pensa que filmes de múltiplos personagens
com histórias que convergem para determinada tragédia já estão superados (Crash – No Limite logo vêm à memória como exemplo
negativo), o grande cineasta Jerzy Skolimowski nos aparece com mais um exemplar
desses, pouquíssimo inspirado para o nível do diretor.
A maior decepção de 11 Minutos é que poucos personagens ali se mostram realmente interessantes,
com histórias boas de acompanhar e se apegar – talvez o do diretor de cinema
entrevistando a bela atriz, uma ex-prostituta, sejam os mais curiosos. Enquanto
isso, vemos um personagem “invadindo” a história do outro, as coincidências
prenunciando um destino fatal, como se isso fosse uma grande sacada aqui.
Pode-se defender que não é um filme de personagens e
mais de atmosfera, potencializado por um trabalho de som realmente bom e
potente. Mas o filme oferece um substrato humano que tem tudo para render mais,
mas prefere se apegar ao dispositivo dos encontros cruzados, com uma
orquestração que vai se intensificando até o clímax final.
Existe talvez um arriscado olhar para as tragédias pessoais
como só mais um evento num mundo repleto de outros eventos, banais ou não, algo
que o filme representa a partir de uma tela com imagens de várias câmeras de
vigilância, mas com uma imagem apagada. A vida – e o cinema – são feitos de vários
desses eventos, mas na tela grande, assim como na vida de cada um, eles
precisam ter importância. 11 Minutos
esvazia essa lógica em prol de um final arrebatador.
Em Jackson Heights (In Jackson Heights, EUA, 2015) 
Dir:
Frederick Wiseman
No meio de uma rua, uma mulher passa e começa a conversar
com outras que estão cuidando do jardim. Não parece que se conhecem, e ela revela
que está a caminho do hospital porque o pai está em estado terminal, todos
sabem que ele vai morrer. Ela pede então que orem pela sua família e ali mesmo as
mulheres dão as mãos e rezam uma prece.
Esse tipo de situação inusitada, a aparente casualidade da
vida cotidiana, é o que capta a câmera de Frederick Wiseman, ampliando seu
projeto cinematográfico de observação documental de certo espaço e das pessoas
ali inscritas. Agora é a vez da região nova-iorquina de Jackson Heights,
situado no bairro do Queens, que se revela um verdadeiro caldeirão multiétnico e cultural
com centenas de pessoas das mais variadas raízes em convivência nesse espaço.
Imigrantes mexicanos e seus pequenos negócios, mulheres
árabes que aprendem inglês, grupos de LGBT que se reúnem para reivindicar direitos,
ritos religiosos católicos ou orientais. Há ali uma profusão de idiomas e tipos
humanos que refletem um novo traço de diversidade da sociedade americana.
Não bastasse um olhar bastante generoso e digno para
aquelas pessoas e suas imensas diferenças, Wiseman ainda consegue ir a fundo em
certas questões que movem alguns indivíduos. Não basta aqui que se mostrem
pessoas com hábitos e práticas sociais, culturais, religiosas etc, diferentes,
mas antes de revelar com essa câmera dramas e histórias pulsantes.

São quase três horas de duração e a maior força do
filme vem da atenção que se dá a certas histórias. Os personagens, que poderiam
ser somente mais uma peça nesse panorama pluricultural, ganha densidade, certa
complexidade e consistência por se mostrarem tão concretas. Mais um belo acerto
desse grande documentarista.

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