Festival do Rio – Parte 6

Fruitvale
Station
 (Idem, EUA, 2013)
Dir:
Ryan Coogler
Fruitvale
Station

já começa com imagens reais da fatídica noite de Ano Novo em que Oscar Grant,
um negro da Bay Area de San Francisco, foi morto por policiais durante uma
confusão numa estação de metrô. Esse recurso narrativo geralmente soa frágil
porque há um esforço em mostrar que aquilo de fato foi real, como se o filme não
confiasse nas suas próprias imagens. Mas aqui é possível relativizar essa
escolha porque a cena funciona como antecipação do clímax da história, sem
mostrar muita coisa, mas já antevendo tragédia.
Depois
de criar esse gancho, o filme se ocupa em reconstruir as 24 horas anteriores à
morte do protagonista, acrescentando nuances e personagens à trajetória torta
de Oscar. Ex-presidiário, pai de uma filha pequena, vive com sua noiva e tem
uma relação ótima com sua mãe depois de conflitos no passado. É ótimo como o
roteiro desenha esse ambiente que cerca o protagonista, sem muita pressa, apesar
de se concentrar em tão pouco tempo.
Mas
há também um esforço em criar esse personagem tridimensional, ainda que incomode
levemente uma clara tentativa de engrandecê-lo, sempre o mostrando como uma
pessoa disposta a ajudar, pai presente e brincalhão, tentando arrumar emprego e
se distanciando do mundo do tráfico de drogas e negócios escusos; enfim,
tentando ser uma pessoa melhor numa sociedade tão hostil para a população negra
e pobre.
Não
deixa de ser um filme militante (e as cenas finais, mais uma vez trazendo os
registros reais de pessoas protestando contra casos como os de Oscar, deixa
isso bem claro enquanto discurso que o filme assume). Mas ainda assim, como
narrativa, é bom o suficiente para nos envolver com aquela história e as
implicações sociais que ela aborda. Destaca-se também os tensos momentos da
confusão que envolve o acidente fatal com o protagonista, filmados com apuro e cuidado
devido para que entendamos perfeitamente o que aconteceu. E sabemos que isso
acontece mais comumente do que se tem notícia.
Nebraska (Idem, EUA,
2013)
Dir:
Alexander Payne 
O
que fazer quando seu pai, um senhor já senil, põe na cabeça que ganhou uma
imensa soma de dinheiro num concurso qualquer e tem de ir a outro estado para
resgatar sua grana? Esse é a desculpa que Payne e seu roteirista Bob Nelson (em
seu primeiro longa escrito para o cinema) encontram para mais um road movie familiar. O filho resolve
levar o pai de carro nessa viagem inútil, pois acredita que só assim o velho
vai sossegar e deixar de fugir à noite a pé caminhando à deriva pela estrada.
O
campo das comédias dramáticas com foco nas relações de família não ganha nada
de novo aqui, especialmente vindo de um diretor tão clássico como Alexander
Payne. Mas seu filme é tão bem cuidado narrativamente, tão bem escrito e
atuado, que não é difícil assistir com um sorrisão no rosto, dado o apuro que a
dupla tem com os personagens. Equilibra humor e drama na medida certa, num
roteiro que faz questão de aparar todas as suas arestas até o final.
Ao
mesmo tempo em que não se distancia tanto dos trabalhos anteriores do cineasta,
Nebraska tem algo de mais maduro, com
texto mais enxuto, uma direção mais precisa. Do pouco que se faz muito, Payne e
Nelson exercitam ao máximo essa capacidade de síntese. Por menos que os
personagens digam, há muito de significação nos seus atos,  expressões e olhares. Tudo é muito
representativo sem necessariamente querer ser cheio de significações.
Se
Bruce Dern surge como esse pai adoentado da cabeça numa performance sensacional
(é incrível como seu personagem consegue inspirar fragilidade e determinação no
mesmo nível), há de se fazer jus a todo o restante do elenco, desde uma
impagável June Squibb, como a esposa desaforada (rendendo as melhores risadas
do filme), até o taciturno filho vivido por Will Forte.
No
fundo há muito de melancolia que esses personagens exalam, por mais que o lado
cômico por vezes impere na trama. A fotografia preto-e-branco é representativa
desse estado de espírito que o filme injeta na vida estanque dessa família que,
se não resolve o conflito do pai, reforça os laços de união que ainda existem
ali, sem grandes alardes emocionais. Nesse ponto a relação pai e filho ganha
destaque pela forma sutil com que é tratada. Nebraska se faz belo por um conjunto harmônico de elementos, nada
parece fora de lugar. É quando o cinema clássico mais convencional está tão afiado
àquilo que se propõe que consegue construir uma trama tão fluida quanto
emocional.
Chevrolet Azul (Blue Caprice,
EUA, 2012)
Dir:
Alexandre Moors 
Em
2002, um homem e um adolescente cometeram uma série de assassinatos nos Estados
Unidos com armas de fogo a bordo de um Chevrolet Caprice azul. Parece a
história ideal para se registrar, mais uma vez, um estado de violência brutal
numa América carregada de ódio, especialmente com personagens condenados à
rejeição social. 
Mas
o diretor estreante no longa-metragem Alexandre Moors busca outro caminho para o
seu filme: interessa a ele os motivos pelos quais esses dois personagens chegam
a tal ponto de atrocidade, sem demonizá-los, na busca por uma compreensão da
mente assassina. É um estudo dos mais interessantes porque se os atos pelos
quais ficaram conhecidos são carregados de uma violência fria, a afinidade que
se criou entre os dois tinha muito de uma estranha comunhão, aproximando-se de
uma relação pai e filho.
Chega
a ser curioso quando o filme abre com algumas imagens reais de noticiários que
dão conta dos trágicos acontecimentos, mas depois volta no tempo para mostrar
como se deu a união dos personagens, apostando num ritmo mais lento, com justo
foco no emocional desses personagens. Lee Malvo (Tequan Richmond) era um garoto abandonado pela mãe que encontra
refúgio ao lado de John Muhammad (Isaiah
Washington), que acabara de perder a guarda dos filhos. Está lançada a comunhão
ideal, que logo se transforma nessa estranha relação paternal voltada para a
atrocidade.
Aos
poucos o ódio de John vai tomando corpo e transmitida a Lee, a partir de
personagens com os quais começávamos a nos afeiçoar. E esse mal então passa a
interessar aos dois como forma de vingança contra uma sociedade vista como
opressora. É essa gênese do horror humano que o filme constrói de forma
latente, cadenciada e que nos interpela sem maniqueísmos ou simples julgamentos.
Algumas Garotas (Algunas
Chicas, Argentina, 2013)
Dir:
Santiago Palavecino 
Existem
cineastas que sabem usar muito bem a câmera na mão. Exemplos como os dos irmãos
Dardenne, Brillante Mendoza e Olivier Assayas fazem parte do time de grandes expoentes
desse jeito inquieto de filmar, criando dimensões de insegurança e/ou tensão para
seus filmes. Mais do que um capricho ou modinha contemporânea, a câmera na mão
deveria ser uma forma de traduzir certo estado de coisas fora do lugar. O
cineasta argentino Santiago Palavecino, certamente, não sabe usar uma câmera
na mão. 
Algumas Garotas é um filme
tipicamente embevecido por essa forma de expor uma trama que conta com
personagens machucados em busca de apaziguamento. É o caso de Celina (Cecilia
Rainero), mulher em crise no casamento que resolve dar um tempo na casa de
campo de uma amiga de tempos atrás. Mas lá, no contato com outras garotas, percebe
que não é a única em desarmonia com o mundo.
É,
portanto, um filme que merece justamente essa atmosfera de inquietação que a
câmera na mão é capaz de trazer. Mas Palavecino filma tão mal, chacoalha a
câmera de forma tão sem trato, que dá vontade de abandonar a sessão na metade.
Além disso, o filme insiste em partir para o campo da fantasia, beirando o
horror, e ainda por certa liberdade sexual experenciada por alguns personagens,
nessa estranha equação se torna confusa num filme claramente desarranjado. Um grande
desserviço para o cinema argentino atual.
A Dança da
Realidade

(La Danza de la Realidad,
Chile/França, 2013)
Dir: Alejandro Jodorowsky 
Sessão
de meia-noite lotada para ver um filme de um esteta do cinema underground. A Dança da Realidade rendeu no Festival do Rio uma das sessões mais
animadas, com clima cult, dessas que
contam com aplausos da plateia quando o nome de Alejandro Jodorowsky surge nos
créditos iniciais do filme em fundo vermelho. 
Mas
o melhor mesmo é poder conferir como o diretor franco-chileno parece ainda
senhor de seu ofício (não só das artimanhas do cinema, como ainda mestre dos
artifícios da surrealidade), mesmo sendo esse seu último filme depois de 23 anos
longe das telas. O cineasta retorna com uma história claramente de tons
autobiográficos em que ele mesmo surge como figura transcendental (ou
futurista) que aconselha os passos do garoto Jodo (Jeremias Herskovits) na sua
infância no Chile natal (e ditatorial) do diretor.
Mas
seria injusto, e mesmo ingênuo por sabermos se tratar de obra de cineasta tão
avesso a convenções, se isolássemos o filme ao âmbito das biografias. Primeiro porque
o enredo só cobre a fase infantil de seu protagonista, o garoto mimado pela mãe
que aprende na marra a se portar como homem através da educação autoritária do
pai. Mas a figura paterna cresce tanto como personagem que em certo momento o
filme se detém especificamente nos caminhos que ele traça longe da família. É
como se a narrativa se levasse por aquilo que é mais latente e interessante na
história que acompanha.
É
de um frescor imenso a forma como tanta coisa acontece no filme, como a narrativa
não cessa nunca seu ritmo, dando conta de diversas situações que envolvem uma
gama de personagens esdrúxulos, fazendo coisas esquisitas, passando por uma
série de situações bizarras. O espectador que se entrega a esse jogo de sedução
pela imagem onírica e fabular pode sair satisfeitíssimo de uma sessão que se
nutre de uma carga de cumplicidade para com a estranheza na tela. 

É
tudo muito inventivo e muito intenso também (desde as cores fortes realçadas
por uma fotografia calorosa até a música operística), um reencontro do diretor
com a estética surreal que rendeu pérolas de sua filmografia como El Topo, A Montanha Sagrada e Santa
Sangre
. Seu mais novo filme pode não ter a verve anárquica que marcava o
espírito da contracultura desses trabalhos anteriores, mas ainda assim é de uma
força que permanece pulsante.

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