Festival de Brasília – Parte II

A Família Dionti (Idem, Brasil, 2015)
Dir:
Alan Minas

 
A
mostra competitiva do Festival de Brasília começou com um gosto de ingenuidade.
A Família Dionti parece um corpo
estranho num festival que supunha ter de revelar filmes em certa medida desafiadores dentro
de uma seleção rígida. Trata-se de uma história carregada de uma poesia tão pueril
quanto cansativa, floreada por uma série de frases de efeito que os personagens
soltam a todo instante.

mesmo uma proposta clara de explorar certa pureza da infância, de resgatar nas
falas e atitudes desses personagens uma visão romantizada do mundo ao redor. Esse
tom combina muito bem num contexto de vida interiorano, onde se passa a
história desse garoto (Murilo Quirino) que vive com o pai (Antonio Edson) e o
irmão mais velho (Bernardo Lucindo) e acaba apaixonando-se por uma aluna novata
no colégio (Ana Luiza Marques).
A
menina chega junto com circo onde ela mora; o garoto por sua vez sofre de um
problema de transpiração em excesso, o outro irmão despende areia do corpo. O
filme flerta com o realismo mágico, grande influência para o diretor, na medida
em que insere alguns elementos fantasiosos na narrativa, apesar de manter um
registro naturalista no todo. Em certa medida, o filme até trabalha esses
elementos em harmonia, não deixando que o fabular seja maior que a história –
há dois bonecos de pano que ganham vida em poucos, mas espirituosos, momentos do
filme, sem que isso seja algo espantoso.
Mas
A Família Dionti tem um problema
grave na maneira como excede aquilo que ele entende por poesia. Cada vez que os
personagens abrem a boca é para falar algo que soe bonito, lírico, criativo,
como se estivéssemos lendo um livro de poesias juvenis, tentando inspirar no
espectador certo conforto e ternura. Essa graciosidade toda – e isso usando um
termo ameno –, no entanto, possui efeito contrário: pode irritar mais do que encantar,
afastar e deixar de envolver.
É
esse excesso que afasta também os dramas dos personagens, especialmente dos
garotos em processo de amadurecimento, com os amores que chegam e as dificuldades
em lidar com as partidas. Nesse ponto, há uma proximidade com o drama do pai, figura
amargurada com o abandono da esposa, tendo de criar os filhos sozinhos. Mas é
um conflito que nunca ganha consistência na narrativa. Aqui, o sofrimento é
parte dessa carga poética de melancolia. 

Ainda que muito bem
resolvido com suas intenções poético-fabulares – até porque investe de cabeça
nessa afirmação do lirismo juvenil constante – A
Família Dionti
soa por demais ingênuo e por isso mesmo pouco empolgante.

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