Encenando vidas

Jogo de Cena (Idem, Brasil,
2007)
Dir:
Eduardo Coutinho
 
É
possível dizer com segurança que quando Jogo
de Cena
estreou em 2007, ele representou uma mudança radical no caminho
estético-artístico que Eduardo Coutinho vinha trilhando na sua brilhante
carreira. O cineasta da interlocução, aquele que colhe o humano do homem comum através
de um dom extraordinário (e aparentemente fácil), isso tempos depois de realizar
uma das maiores obras-primas do cinema brasileiro (e mundial) que é Cabra Marcado para Morrer, vem e alia à sua invejável habilidade de entrevistador uma discussão puramente
cinematográfica.
Porque
mais do que um filme sobre grandes histórias (e todas aqui são interessantes, cheias
de verdade e emoção – o que já é um grande diferencial em filmes de caráter episódico),
Jogo de Cena veio dar sua
contribuição incontestável e potentemente criativa a essa coisa de borrar a “fronteira
entre ficção e realidade” que tanto se alardeia recentemente, especialmente no
campo do documentário, mas não só nele.
Não
é uma discussão que nasceu ontem. Muitos filmes e propostas estéticas há muito
tempo já apresentavam essa dicotomia e colocavam em discussão essa barreira. Mas
é evidente como essa forma de lidar com a encenação no cinema tem se tornado
tão forte e comum em vários lugares do mundo atualmente (basta lembrar experiências como as
de Aquele Querido Mês de Agosto, no Portugal
interiorano de Miguel Gomes, ou no Irã repressor de Jafar Panahi com Cortinas Fechadas).
Dentro
de um teatro, Coutinho reuniu algumas mulheres que possuíam histórias de vida
interessantes para contar (e chega a ser genial a forma super simples como o filme
revela isso: o filme começa com o anúncio posto nos jornais do Rio de Janeiro à
procura dessas mulheres). Suas histórias serão posteriormente interpretadas
por atrizes no mesmo lugar, diante da mesma equipe e, mais que isso, elas serão
interpeladas pelo diretor sobre o processo de adaptação, recriação e encenação
do texto e da personagem.

Pois
são essas as simples ideias com as quais o longa opera na sua feitura. No
entanto, o que faz o filme ganhar tanta força no jogo a que se propõe está na
maneira como essas peças se conectam na construção na narrativa total do filme.
Em alguns casos, nunca é possível dizer quem é atriz (algumas não são
conhecidas do grande público) e quem é a personagem inicial; nem todas as
histórias são retratadas duas vezes; por vezes, atriz e personagem real são
intercaladas para contar a mesma história, outras vezes as histórias são vistas
separadamente em momentos distintos do filme em suas duas versões. O filme
parece encontrar a medida certa para cada ocasião, para cada fragmento de
vida que sobressai ali, testando e propondo novas leituras.
Nesse
constructo, essa tal linha tênue que intercala real e ficção torna-se, com muita
facilidade e sem grandes abalos, uma etapa vencida (embora o filme se nutra o
tempo todo desse “choque” e nunca o perca de vista), como se se esvanecesse
diante da câmera, ao olho do espectador que se encanta por aquelas fragmentos
de narrativa. Do riso ao choro, os contos de cada uma são de uma força
hipnótica, em primeiro lugar, para depois revelarem ou deixarem transparecer as apostas
narrativas que estão em jogo ali.
Num
deles, depois que a mulher relata a história de como teve uma filha com um
homem que ela só viu uma única vez na vida, com pitadas de humor e mesmo uma dose de ternura no final, ela olha para a câmera e dispara: “foi isso que
ela disse”. São com essas pequenas brincadeiras com o espectador, com essas interpelações
que nos fazem olhar (e se encantar) por aquilo que está sendo construído em
cena (e que pode fugir mesmo do domínio da produção do filme, como quando o
próprio Coutinho é interpelado por uma das entrevistadas sobre Procurando Nemo: “o senhor tem
preconceito, não gosta de americano, é meio comunista, né?”), que Jogo de
Cena
revela-se uma experiência renovadora, emocionante e engraçada, como
boas histórias de vida sabem ser. 

Com a morte avassaladora de Eduardo Coutinho, o cinema
nacional perde esse que era também um grande pensador da arte de extrair
histórias de quem se põe diante dele, diante da câmera, diante de nós. Jogo de Cena e as experiências fílmicas posteriores,
desafiadoras como passaram a ser, mostram como o diretor ainda estava disposto
a exercitar um certo olhar para os meandros do cinema e da interlocução. Suas perda é uma das mais sentidas no mundo do cinema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos