E Zeus criou a mulher

A Caixa de
Pandora

(Die Büchse der Pandora, Alemanha, 1929)
Dir:
G. W. Pabst

Evocando
o mito grego de Pandora, que tendo recebido uma caixa com os males do mundo, é
alertada a nunca abri-la, ordem que prontamente desobedece, espalhando assim o
caos pela Terra, o filme mais conhecido do cineasta alemão G. W. Pabst é também
a celebração perigosa da imagem feminina. Isso porque Pandora é tida como a
primeira mulher criada pelos deuses gregos.

Mas
a personificação desse mito em Lulu (vivida no filme pela estonteante Louise
Brooks) é somente uma das muitas facetas que o filme nos apresenta. Porque o
que motiva Lulu está longe da curiosidade aguçada que tomou Pandora, mas sim
uma quase necessidade de permanecer adorada e paparicada pelos homens a sua
volta, uma maneira de continuar viva, esbanjando sensualidade, mas trazendo ao
mesmo tempo desgraças para todos, inclusive a ela mesma.
Ao
mesmo tempo, não parece haver pretensões maquiavélicas por parte dela e sim uma
naturalidade impulsiva com que apaixona e destrói os que estão no torno, anjo e
demônio mimado das vontades e desejos, como uma maldição dos deuses sobre os
homens. Representa ela mesma, sem saber, os perigos do mundo soltos por aí.
Perigos
esses que estão relacionados aqui à própria atração dos homens com quem ela
cruza no caminho, do rico dono de um jornal (Fritz Kortner), seu filho (Francis Lederer) ou mesmo do velho
tutor da garota (Carl Goetz). E não somente aos homens ela afeta porque não se
pode esquecer da icônica Condessa Geschwitz (Alice Roberts), tido por muitos
como a primeira personagem lésbica do cinema, tomada de amores por Lulu,
desiludida por não obter correspondência no amor que nutre pela mulher
esfuziante que a (quase) todos domina.
Daí
que o arco dramático do filme se apresenta como movimentos de deslocamentos a
partir das perdas, quase de fuga. Pois desde a primeira ruptura, quando o dono
do jornal abandona a noiva para se casar com Lulu, a partir de uma armação
dela, cada movimento seguinte será marcado pela tragédia, fazendo mover a
história pelos caminhos da fuga. Até o momento em que a própria Lulu se depara
com uma ameaça maior, curiosamente vinda pelas mãos de um homem, ainda assim
seduzido, um pária da sociedade assim como ela.
Distante
da escola expressionista alemã que na então década de 20 ganhou força e
reconhecimento no meio artístico, Pabst prefere o registro mais realista,
clássico no sentido formal, na maneira objetiva e sem simbolismos cênicos com
que conta uma história mais próxima do realismo social. Apesar de haver uma luz
intensa acentuando as situações dramáticas, ela está mais próxima da
naturalidade das ações, assim como as atuações do elenco fogem do exagero
expressivo e gestual, preferindo tons mais “reais”.
O
uso de alguns longos planos passa como que despercebidos para o espectador
menos atento porque não estão ali para se sobressair, fluem com a narrativa,
marca estilística clássica abraçada pelo diretor. Foi talvez, por isso, um
cineasta pouco valorizado em seu tempo, nadando contra acorrente.
Mas
A Caixa de Pandora, para além dos
seus méritos narrativos e estéticos, tem em sua intérprete protagonista uma de
suas maiores potências. Poucas vezes na história do cinema, atriz e personagem
mantém tanto em comum e se complementavam quanto aqui. Louise Brooks,
nascida nos Estados Unidos, dona de um temperamento tempestivo e afirmativo,
não chegava a ser bem vista pela indústria hollywoodiana, logo deixada de lado.
Vem trazer sua presença luminosa e faceira para a
Europa, ganhando nas mãos de Pabst espaço para expor sua personalidade forte e
independente nos filmes, espelhando em seus personagens o lado fatal e
angelical da mulher. Sendo assim, A Caixa
de Pandora
se configura como o retrato perturbador do poder (auto)destrutivo
da figura feminina.

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