É Tudo Verdade – Parte V

 

 

O Futebol (Idem, Brasil/Espanha, 2015)
Dir: Sergio Oksman
Questões de família, especialmente aquelas com fissuras e cicatrizes não curadas, marcaram forte presença dentre os filmes desta edição do É Tudo Verdade – obras como Allende, Meu Avô Allende, Anos Claros Um Caso de Família, este último vencedor da competição internacional de longas. Também o ganhador dentre os brasileiros em concurso escancara com muita força os dramas pessoais de seus realizadores: O Futebol é um filme duro e potente enquanto registro e uma realidade não latente, mas estanque.
Dirigido pelo brasileiro radicado na Espanha Sergio Oksman, o filme é também uma espécie de diário íntimo de reencontro, embora com mais sequidão do que se espera de uma narrativa pessoal e no âmbito familiar. Há mais de 20 anos que o diretor não via o pai. Quando Oksman tem a oportunidade de vir a São Paulo durante a Copa do Mundo de 2014, resolve retomar o contato com uma proposta: filmar o reencontro enquanto eles acompanham os jogos da Copa.
Simão é um homem quase impenetrável. Rechaça qualquer tipo de entrada que possa significar um acordo com o passado, dispensa qualquer forma de expor velhas feridas e de fazê-las cicatrizar – é difícil mesmo entender até que ponto, para ele, essas questões são realmente fundamentais ou já águas passadas, ativas ou abrandadas. Oksman, com equipe reduzidíssima, tenta dar conta de revelar a rotina do pai e de se inserir nesse contexto como elemento provocador.
É natural pensar que estaremos diante de uma história de reaproximação, mas o filme é um retrato de uma dificuldade. Dificuldade de conversa franca, dificuldade de afeição – do modo caloroso como pensamos uma relação pai e filho –, dificuldade de ultrapassar a barreira do futebol. Simão consegue falar sobre escalações passadas da seleção brasileira, relembra lances e partidas de jogos históricos, mas na esfera afetiva/familiar é uma negação para lembrar. Ou, antes, quer ser uma negação nesse aspecto, recusa a lembrança e a prestação de contas com o passado.
Com  isso, o diretor compõe um retrato rígido do encontro desencontrado, preferindo o os longos planos estáticos, ou aqueles dentro do carro em movimento, que conferem rigor formal ao filme, ao mesmo tempo que reflete justamente a dificuldade de interação entre pai e filho. O futebol seria essa zona confortável em que a comunicação acontece – e o filme é capitulado a partir dos jogos da Copa –, como se aquilo fosse um pretexto, muito embora Simão pareça sempre no controle das situações, seja das conversas ou da sua própria movimentação no filme. Ele se recusa, por exemplo, a trocar um dia de trabalho para ir ao estádio ver um dos jogos, o que rende um dos ótimos momentos do filme em que os dois, de carro, estacionam num lugar perto do estádio onde só é possível ouvir o barulho e a reação da torcida. O Futebol é um gesto documental sobre uma relação possível entre esses dois homens, mas quase impossível no plano concreto.
É mesmo um campo escorregadio, de difícil penetração, por onde o filme trafega. Oksman, antes de diretor-personagem de um filme, é o filho que busca o confronto amigável, respostas, motivos, alguma verdade, mas encontra uma figura paterna pouco disposta, em certo sentido mesmo embrutecido, mas ainda assim há um laço afetivo a que eles se apegam. Não parece haver repulsão entre os dois, mas também há empecilhos para uma atração. Tão perto e tão longe. É a pulsão da imagem que os aproxima, e é com ela que eles se despedem.

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