Desencanto do belo

Sangue
Azul
(Idem, Brasil, 2014)
Dir: Lírio
Ferreira                                          
O circo Netuno chega a uma ilha paradisíaca para se
apresentar na pequena cidade. Chega também o filho pródigo que retorna ao lar
como novo homem, agora com nome mudado, artístico. É Zolah (Daniel de
Oliveira), o Homem Bala do circo, separado da irmã (Caroline Abras) pela mãe
(Sandra Coverloni) ainda quando crianças. É esse reencontro que abala o destino
da família, faz reviver uma aproximação proibida entre os irmãos, ainda que
muito dos embates entre eles estejam nas entrelinhas, revelando-se aos poucos.
E talvez pouco demais.
Sangue Azul, do pernambucano Lírio Ferreira, busca reacender a magia
perdida do espetáculo mambembe, mas é também um conto sobre origens e amores tolhidos.
Há uma série de personagens que chegam com o circo, cada qual com seus
conflitos e angústias pessoais, agitando a rotina pacata do lugar.
Mas talvez sejam histórias demais quando o interessante
mesmo é a relação de Zolah com família, consequentemente buscando se encontrar
na terra natal. Ora, é ele quem traz a cor ao filme (e à ilha): na sua primeira
apresentação como homem bala, a fotografia em preto-e-branco do início ganha colorido
quando ele explode no canhão. Faz explodir também os desejos de uma relação
incestuosa há tempos castrada.
Há de se notar que o filme investe em personagens pouco
estimulantes nas questões que trazem consigo, como por exemplo o affair entre o dono do circo, vivido por
Paulo César Peréio, e o homem mais forte do mundo, interpretado por Milhem
Cortaz; ou mesmo o tenso atirador de facas de Matheus Nachtergaele. Estão ali
quase como um capricho, a fim de também dilatar o conflito do protagonista.
Além disso, o longa parece encantado pela própria
natureza paradisíaca do lugar que filma, ainda que saiba aproveitar bem essa
ambientação em momentos belissimamente fotografados. Se por um lado há um
apreço visual que embala muito bem essas histórias entrecruzadas, no fundo, é
muito cômodo filmar o belo quando se conta com números circenses e a locação do
filme é Fernando de Noronha. Parece mesmo que toda a beleza visual acaba por roubar
a atenção para os conflitos humanos. 

Ferreira, responsável pelo renascimento do cinema
pernambucano em fins dos anos 1990 com o já clássico Baile Perfumado, constrói aqui uma narrativa longe de ser óbvia, costurada
com algo de muito poético. O mais curioso é que essa opção chega a desviar a
atenção para o arco dramático central.
 

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