Claire Denis: Calor do corpo, frieza da mente

Desejo e
Obsessão

(Trouble Every Day, França/Alemanha/Japão, 2001)
Dir:
Claire Denis
Seria
esse um filme atípico dentro da filmografia de Claire Denis por operar no âmbito
da ficção científica, caso não existisse aqui uma insistência na ebulição do
corpo, da inquietação que move os personagens a partir de seus desejos. Mas
longe de se aplicar às normas e preceitos do cinema de gênero, Desejo e Obsessão começa apresentando
seus mistérios e vai, aos poucos e sugestivamente, revelando-os ou nos dando
pistas sóbrias para esclarecê-los, bem ao gosto singularda cineasta francesa.
A
doença que acomete alguns personagens, como a esposa do médico Léo Sémenau
(Alex Descas), vivida intensamente por Béatrice Dalle, dona das cenas mais
intensas do filme, se estabelece na ânsia sexual que culmina no canibalismo do
parceiro; ela come mesmo, devora a carne e se banha em sangue. É um filme,
portanto, sobre o desejo carnal, literalmente posto, como uma praga canibal.
É
também uma doença da mente, pois é aí que parece se infiltrar essa espécie de
vírus causador da anomalia. Mas Denis não está preocupada nas causas biológicas
e muito menos numa possível epidemia, mas sim na forma como isso move e
inquieta os personagens. Paralelamente, Shane Brown (Vincent Gallo), em lua de
mel com sua esposa June (Tricia Vessey) na França, procura o Dr. Léo por
acreditar estar sofrendo do mesmo mal.
É
aí que o filme vai convergindo e revelando uma interligação passada entre esses
personagens, enquanto as marcas do desejo vão se deflagrando. Mas não só
nos infectados porque essa mesma ânsia existe nas pessoas com que eles se
encontram, como é o caso da camareira do hotel e dos garotos que espreitam a
casa onde Coré, a esposa de Léo, vive trancafiada. É um desejo que faz parte da
natureza humana e que Denis filma como uma busca por realização, mesmo que possa custar da vida do outro.
Essas
colocações podem nos remeter ao cinema de David Cronenberg (muito embora as
preocupações do cineasta canadense revelam-se um tanto diferentes, como a ideia
de limite do corpo, tão presente em sua obra). Denis busca uma outra textura: a
luta entre o desejo, o autocontrole e aquilo que o corpo precisa para saciar sua ânsia.
O Intruso (L’Intrus,
França, 2004)
Dir:
Claire Denis
Para
quem achava que Bom Trabalho já era
um filme muito sugestivo da Denis, talvez se espante com o nível de abstração
que pulsa de O Intruso. Mas aqui esse
fluxo narrativo talvez tenha uma dose maior de incômodo justamente por deixa o
espectador por demais perdido na história desse senhor que busca um transplante
para o coração que não lhe atende mais. Mas seria esse mesmo o fio de história
que importa aqui?
Ele
busca também contato com o filho que não vê há tempos e ainda precisa lidar com
os intrusos que invadem sua casa à noite, uma residência de campo em algum lugar entre
França e Suíça. Se o cinema de Denis se faz com uma série de idas e
vindas no tempo, sem localização aparente, aqui esse movimento contínuo confere ao longa um tom frio e distanciado demais.
Às
vezes cortes muito rápidos não nos dão tempo para digerir uma imagem que é logo
substituída por outra que pode – ou não – estar em outro tempo narrativo. Isso quando
elas não fazem parte do universo dos sonhos de Louis (Michel Subor), nosso
herói que tenta se salvar. É assim que O
Intruso
se configura como um filme cerebral demais, gélido, distante. 

Evidencia-se
aqui uma bela capacidade da diretora: falar através de silêncios e,
principalmente, que seus atores expressem muito sem nada dizer. Era assim com
Alex Descas em 35 Doses de Rum,
Isabelle Huppert em Minha Terra, África
e Denis Lavant em Bom Trabalho. Em O Intruso, Michel Subor tem um trabalho
que lhe exige mais porque esses momentos de introspecção são ainda mais
constantes, o que dificulta a apreensão daquilo que motiva e deseja esse
personagem, e os outros também. No fundo, não estamos diante de uma história que
queira ser compreendida como um todo, em pormenor. Mas essa recusa aqui mais
afasta do gera curiosidade.

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