Curtinhas

À Toda Prova (Haywire, EUA/Irlanda,
2011)
Dir:
Steven Soderbergh
Que
filme de ação estiloso esse do Soderbergh. Um dos cineastas mais prolíficos do
nosso tempo é também um dos mais irregulares, variando bastante em temáticas e
estilos. Nas vezes que ele acerta, como nesse aqui, se não podemos esperar um
filmaço, pelo menos tem-se a sensação de tempo e dinheiro bem gasto com
diversão e adrenalina. O roteiro se embaralha um pouco nas idas e voltas que dá
para costurar a história da agente secreta que tenta descobrir por que está sendo
perseguida pelos seus próprios companheiros, na medida em que busca vingança
contra os agora traidores.
As
cenas de luta são todas muito boas, viscerais no sentido de soarem mais cruas e
conviventes mesmo, com a protagonista batendo e apanhando na mesma medida,
ajudada por uma montagem eficiente e ritmada como são nos bons filmes de ação. Por
isso faz muito sentido que a protagonista desse filme seja a ex-lutadora de MMA,
Gina Carano. Seu casting e presença
de cena funcionam muito bem dentro do projeto (muito melhor que a escalação da
ex-atriz pornô Sasha Grey para fazer o insosso Confissões de uma Garota de Programa, por exemplo). À Toda Prova ainda tem aquele gostinho
de produto B descartável, mas que agrada bem enquanto dura.
O Porto (Le Havre,
Finlândia/França/Alemanha, 2011)
Dir:
Aki Kaurismäki

Uma
das coisas mais cativantes no cinema do finlandês Aki Kaurismäki é de como suas
narrativas estão para um registro nórdico que valoriza o ritmo vagaroso, a
falta de pressa, uma expressividade seca do elenco (algo bem bressoniano), mas que
apesar de tudo isso transparece uma ternura muito grande por seus personagens (qualidade
que se aplica também ao cinema do grego Theo Angelopoulos, por exemplo). No fundo, é
um cineasta otimista, geralmente com a trilha sonora fazendo o papel de
comentar essa ponta de prosperidade nos seus trabalhos. O
Porto
só vem contribuir para fazer jus a uma filmografia repleta de
personagens sofridos, com problemas, mas sempre seguindo em frente
em busca de realização. Aqui, um homem pobre, Marcel Marx (André Wilms) ajuda
garoto africano refugiado ilegalmente (Blondin Miguel) a se esconder da polícia, pois
pretende cruzar o mar para chegar às terras inglesas onde alguns de seus
familiares já se encontram.
Por mais que Kaurismäki transporte a história para uma cidade
portuária francesa (lugar mais propício às discussões da migração clandestina
justo por ser uma dos destinos mais almejados na Europa), é perceptível a estética visual
colorida, quase kitsch, visto em
filmes como O Homem Sem Passado e Luzes na Escuridão. Interessante como o
diretor-roteirista apresenta uma gama de personagens que compõem o universo de Marcel,
aparentemente sem importância, mas que ganham relevância para o desfecho da
história. Assim como a trama paralela da doença incurável de sua esposa terá
papel importante, mas para reafirmar, mais uma vez, o direito à felicidade.
Para Kaurismäki, ela só chega através da bondade.
Jogos Vorazes (The Hunger
Games, EUA, 2012)
Dir:
Gary Ross
Esqueçam
possíveis relações com a Saga Crepúsculo.
Jogos Vorazes, apesar de
protagonizado por adolescentes em história de aventuras, com doses de melodrama
injetado no meio da trama, possui propostas temáticas e até mesmo tratamento estilístico
bem distintos e mais interessantes. Adaptado de um livro homônimo de sucesso
(parte de uma trilogia), seu maior trunfo é estar ancorado numa trama de
aventura violenta, mas ainda assim se deter bastante em desenvolver seus
personagens. Em especial a jovem e destemida Katniss (Jennifer Lawrence),
garota de uma vila que acaba sendo uma das concorrentes de um jogo em que é
preciso matar os demais jovens para vencer. Se inicialmente ela parece perdida
em meio ao jogo político dentro do jogo, logo vai aprendendo a buscar vantagens.
Mesmo assim, até o fim do filme, motivações e atitudes dos personagens passam
por mudanças interessantes e nunca abruptas.
Interessante
como esse filminho que mira o público jovem consegue manter um subtexto
político sutil, propondo alguma reflexão, mas sem exagerar no tom. Além disso, existe um curioso
e feliz uso da câmera da mão que surpreendentemente funciona muito bem no
sentido de criar tensão, seja na primeira metade preparatória do filme, com as intrigas
e conspirações sendo formadas (parte que eu mais gosto), seja quando as
próprias disputas mortais começam no campo de batalhas. Aí, o filme perde um
tanto porque força algumas situações (principalmente quando as regras do jogo
mudam), mas ainda tem sua parcela de boa aventura.
Battleship – Batalha
dos Mares

(Battleship, EUA, 2012)
Dir:
Peter Berg

O
que tanto desagrada em Battleship –
Batalha dos Mares
é sua principal motivação: expor o espectador o tempo que
puder à estética da destruição com suas explosões, ataques e bombardeiros
desferidos, de um lado, por máquinas mortíferas que chegaram do espaço, contra
navios de guerra da Marinha norte-americana. Seria até interessante se entregar
à adrenalina da situação, caso o filme tivesse um mínimo de cuidado com sua
trama e seus personagens. Mas tudo é tão imbecilizado, a começar pelas motivações
dos personagens, suas falas clichês (Rihanna só está no filme para dizer coisas
do tipo: “Meu pai sempre disse que isso ia acontecer”, a vidente). Fora as
tramas paralelas que envolvem a necessidade de amadurecimento do tenente Alex
Hooper (Taylor Kitsch) e a tentativa de
que seu superior (Liam Neeson) aceite o namoro dele com sua linda filha.

Dizer
que o filme é baseado no jogo Batalha Naval parece dos mais absurdos porque existe
somente uma tentativa de acrescentar uma artimanha encontrada pela tripulação
para substituir os radares interceptados pelas forças alienígenas, o que simularia um jogo de tabuleiro. Seria mais apropriado identificá-lo como uma
versão genérica e piorada de Transformers,
já que os vilões chegam equipados de máquinas destrutivas que se assemelham a
robôs mal feitos. Sobra, assim, mais um produto da indústria hollywoodiana de produzir
anestesia nos espectadores que se dispuserem em sentar pouco mais de duas horas
para serem atingidos por obra tão vazio e recalcada.

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