Curtinhas

A Vida em Um Dia (Life in a Day,
EUA/Reino Unido, 2011)

Dir:
Kevin McDonald e outros
Uma
bela surpresa esse filme-colagem. Partindo de uma proposta coletiva em que
pessoas anônimas do mundo todo enviam vídeos que fizeram num determinado dia do
ano (24 de julho de 2010), o filme tenta reconstruir e reconfigurar, cronologicamente, acontecimentos
que se deram nesse período em partes diversas do
globo. Seu maior mérito reside numa montagem felicíssima ao colocar junto
imagens tão diversas em tratamento e representação cultural, mas que acabam
formando um todo bem coeso. Nem sempre o distante, o outro, é tão diferente
assim. Produzido pelos irmãos Ridley e Tony Scott em pareceria com o YouTube
(onde o filme se encontra disponível para ser assistido online), A Vida em Um Dia é reflexo contemporâneo da
possibilidade de qualquer um em disponibilizar seus registros caseiros de imagens em movimento, marca
indelével da geração digital.

ainda uma porção de ótimas cenas que parecem simples, mas ganham uma força
enorme em meio ao todo, a despeito da simplicidade técnica. Minhas preferidas
são o menino dando bom dia à mãe, a mãe amamentando o bebê, o senhor
agradecendo a equipe do hospital que o operou, a garota dizendo que quer
existir, mesmo que nada de incrível tenha acontecido a ela naquele dia. A maior
parte das cenas funciona como excertos independentes, mas vistos em conjunto, produzem uma experiência bela pelo que de humanidade, mesmo a mais cotidiana, se
encontra ali.
Nanook, O Esquimó (Nanook of the
North, Reino Unido, 1922)
Dir:
Robert J. Flaherty
Para
além do marco histórico que Nanook, O
Esquimó
representa na história do Cinema e do controverso nascimento do
filme documentário, a obra antropológica de Robert Flaherty pode ser vista,
também, como um belo olhar para uma cultura distante e distinta, a partir de
seu caráter exótico. Com certeza que em 1922 o modo de vida dos esquimós do
norte do Canadá, mais especificamente um povo nativo conhecido como inuit, cercaria de interesse as imagens
em movimento registradas de seu modo de vida. Mas Flaherty consegue extrair dali um senso
de humanidade latente, esse sim um dos grandes méritos daquela história. Por
mais antropológico que seja o olhar do diretor, não se nota em nenhum momento sua
relação com os inuits como sendo de
superioridade, os esquimós como objetos científicos a serem observados pelo
homem “civilizado” (ele nem era, por formação, um antropólogo).
Existe
todo um repeito e mesmo admiração com que o cineasta filma os passos de
sobrevivência de Nanook e sua família, quase como se estivesse ali como amigo.
Já pelos letreiros percebe-se esse tom de consideração, em especial no início
quando ele informa da morte de Nanook dois anos depois das filmagens terminadas.
O filme celebra a vida simples, artesanal e árdua, a luta diária daquele povo
para comer e se proteger do frio intenso e dos predadores. Extrai graça dos
primeiros passos e ensinamentos dos filhos da família e aprende, com todos, os
artifícios de sobrevivência no ambiente inóspito. Tudo registrado, e
principalmente encenado!, com a precisão de quem documenta a vida “real”, pelas
mãos de um cineasta que admite não ter grande experiência com o aparato de
cinema. O resultado, para além do marco histórico, é também um filme terno,
como o sono final e tranquilo de Nanook faz transparecer.
Corumbiara (Idem, Brasil,
2009)
Dir:
Vincent Carelli
Ultimamente,
filmes sobre a situação indianista no Brasil vêm se destacando como temática de
grande interesse, resultando em ótimas obras, casos de Serras da Desordem e Terra
Vermelha
(esse, uma coprodução com a Itália). Corumbiara é mais desses trabalhos contundentes, com veia de
denúncia social, sobre o massacre da população de índios no sul de Rondônia há
mais de vinte anos, encobertado pelo falatório geral de que as tribos não
existiam e nem habitavam o local, rico pela exploração madeireira. Se a grande
questão que se coloca é se aqueles índios existiam mesmo ou não, o filme não
perde tempo com conspirações, preferindo provar a primeira opção através de
imagens. 

Daí
que a dúvida vai se dissipando à medida em que o difícil contato com aqueles
indígenas vai sendo feito, e o que eram somente dois remanescentes da tribo,
escondidos e temerosos, se revelam serem mais dois, depois uma idosa, umas
crianças, uma tribo inteira que vai tomando corpo na tela, provando a existência com sua
presença. Vicente Carelli, em parceria com o indigenista Marcelo Santos,
retoma o tema e desvenda os meandros por trás da história escusa, revelando
por dentro o descaso que a causa indígena sempre teve no Brasil. É, sobretudo,
um filme de pesar, mas ainda assim com coragem suficiente pra mostrar a cara (e
o canto, como na bela cena final) daqueles que resistem.

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