Cine Ceará – Parte VIII

Nua Por Dentro do Couro (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Lucas Sá

Lucas Sá é um jovem cineasta que não esconde sua predileção pelo horror e o filme de gênero, revisitando narrativas que, mais do que dialogar, prestam homenagem ao gore e ao filme B. Seu último trabalho, Nua Por Dentro do Couro, tem essa característica, mas apresenta um diretor mais seguro e apurado enquanto encenador, ainda que sobrem certos momentos de apelo pop-kitsch (como as cenas das amigas brigando ou dançando lascivamente juntas).

Um de seus filmes anteriores, O Membro Decaído, também próximo do suspense, tinha algo de muito estudado, formalismo que por vezes nos apresenta bonitas composições de quadro, mas também endurece o filme por soar, contraditoriamente, limpo e “certinho” demais. Agora, com Nua por Dentro do Couro, essa tendência formal se dilui numa história que se sustenta mais por si só.

Além disso, há um trunfo maior aqui: a presença de Gilda Nomacce como protagonista, dando vida a uma espécie de serva misteriosa, postura e olhar de estranheza mórbida que carrega no semblante aéreo. Apesar de começar a ficar marcada como atriz de papeis esquisitos (em Jiboia ou Quando Eu Era Vivo, para ficar em poucos exemplos), é ideal para viver mulheres excêntricas e ainda subir o tom da interpretação sem parecer over.

Azar da jovem meio cabeça de vento, vida destrambelhada, que mora no mesmo prédio e vai, depois de uma péssima notícia, comprar cupcakes na casa da estranha senhora. Cai numa bela armadilha, talvez já prenunciada quando as duas se encontram pela primeira vez na porta do prédio. É aí que o filme avança para o grotesco e o horror, mostra suas garras sem parecer mero capricho de fã de narrativas grotescas – embora a referência cinéfila a Possessão, do Zulawski, seja incontornável. Mas é um filme que caminha com suas próprias pernas e isso já é formidável.

 

Action Painting nº 1/nº 2 (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Krefer e Turca

Trabalho experimental dos mais objetivos, Action Painting nº 1/nº 2 parece bem consciente do que é e talvez do que quer propor, sendo, ao mesmo tempo, muito aberto. É formado por duas cenas que enfocam a mesma coisa: dois amantes fazem sexo, câmera fixa nas costas de um enquanto o outro produz marcas no parceiro, sejam elas de unhas ou de cera quente.

Adeptos do BDSM, Krefer e Turca, o casal na tela e diretores do filme, expõem algo que é do íntimo, mas sem o propósito de revelar particularidades. Antes, dão vazão ao ato criador, abstrato na maneira como se desenha, no próprio corpo, uma textura que passa a ser gráfica através da pulsão sexual, arte do corpo por excelência.

As costas quase que tomam a dimensão completa da tela que aqui se apresenta em formato retangular, o que já é uma boa pista da aproximação do filme com a pintura e as artes plásticas, algo sugerido também pelo título. De forma muito direta, o filme faz valer seu entrelugar enquanto criação artística, ao mesmo tempo que revela toda a intensidade voluptuosa que brota dali. Pulsão essa que se transforma, para nós, em composição visual, sem ter muito o que explicar ou teorizar. Existe pelo puro prazer e isso basta.

 

Kyoto (Idem, Brasil, 2014)
Dir: Deborah Viegas

 

Grande vencedor da mostra principal de curtas-metragens do Cine Ceará, Kyoto é um estudo sobre a pulsão imaginativa de uma criança e de como isso lhe basta como verdade/realidade. Um filme singelo, como os melhores vistos na competição do evento, mas talvez sem a força de uma grande realização.

A menina que escreve na escola redação sobre supostas férias tiradas no Japão é pega na mentira, ainda que não consiga se desdizer. Viegas lança um olhar muito terno e carinhoso para essa personagem e seu ambiente escolar. Quando a câmera não observa de longe o que se passa, está muito próximo da menina, de suas feições, quase que fazendo questão de esquecer o mundo ao redor e se concentrando em outro, que faça muito sentido para a protagonista.

Os personagens falam, mas nunca os vemos por completo (especialmente os adultos), uma maneira de adentrar numa percepção infantil de seu próprio entorno forjado, ainda mais na especificidade comportamental fugidia dessa garota diante da realidade. Mas pouco o filme põe em conflito, já que os castigos que decorrem dali por vezes soam exagerados, ou antes pouco aprofundados em razões maiores, além de terem efeitos aparentemente pouco práticos para ela. No final, Kyoto contenta-se em apresentar uma cumplicidade que é tudo o que a garota precisava, o que já revela a vocação do filme em lhe fazer um afago.

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