Cine Ceará – Parte V

O Estranho Caso de Ezequiel (Idem, Brasil, 2016)
Dir: Guto Parente
Depois de um filme anterior calcado no horror como experiência do sensível, o fantasmagórico A Misteriosa Morte de Pérola, Guto Parente continua certa investigação de gêneros nesse O Estranho Caso de Ezequiel. O filme começa como algo que mira num sobrenatural um tanto quanto acolhedor – porque temos um homem que perdeu a mulher, mas que recebe visitas da aparição dela e isso parece lhe fazer bem –, para logo em seguida seguir um caminho tão áspero quanto inquietante.
Essa primeira parte do filme, quando as coisas nos são apresentadas, talvez seja um dos momentos mais claros e objetivos enquanto narrativa de uma obra assinada pelo coletivo Alumbramento, mais direto mesmo em sua composição, o que não torna o filme menos peculiar dentro do contexto de produção do grupo que sempre prima pela experimentação.
O luto é posto desde o início, via citação bíblica em epígrafe, retirado do livro de Ezequiel. Não por acaso é esse mesmo o nome do protagonista que realmente vivencia momento de pesar pela morte recente da esposa. Se o filme começa como observação naturalista do cotidiano desse homem dilacerado, mas sem o excesso da dor, sua vida logo se abala pelo time de estranhezas inicias que envolvem tanto a aparição fantasmagórica de sua mulher, como também o surgimento surreal de um personagem muito sui generis, sempre envolto em uma luz esverdeada, que nunca fala, em estado constante de tremulação corporal.
O filme, então, parte como um estudo dessa estranha relação a três que se forma a partir de uma dor, mas ganha outras nuances dentro do que parece ser um universo muito particular que aqueles personagens encontram para estarem juntos. Há algo de conforto que se busca na partilha da proximidade natural entre eles próprios, sem nenhum tipo de estranhamento ou repulsa entre si, como se eles se reconhecessem na marginalidade que os representam enquanto sujeitos deslocados.
O personagem do vizinho espião pode ser essa ligação com o mundo concreto, real, como o conhecemos. Mas O Estanho Caso de Ezequiel, já não tão claro e objetivo nessa altura do filme, dá muitos passos adiante ao lançar seus personagens – ou quem sabe, lhes dar de presente – a outro mundo possível, paralelo, futurista ou onírico que seja, mas ainda assim reconfortante, acolhedor, apesar de solitário.

A última parte do filme desparafusa e embaralha o espaço-tempo e é também o momento em que o filme mais se sente livre para experimentar na criação visual e sonora que o aproxima da distopia, sem igual ou referente cinematográfico mais evidente que possamos lembrar por agora. Há muitas leituras possíveis a serem feitas – o que sempre pode significar um retorno curioso ao filme –, mas a ideia de uma sociedade totalmente nova, baseado no amor ao estranho, no reconhecimento fraterno da dor e das estranhezas do outro, fosse uma chave de entrada num mundo mais justo e afortunado.

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