CachoeiraDoc – Parte VI

 

Terra Natal: Iraque Ano Zero
(Homeland: Iraq Year Zero, Iraque/França, 2015)
Dir: Abbas Fahdel

 

É das coisas mais incríveis e potentes a experiência de assistir a Terra Natal: Iraque Ano Zero na sala de cinema, sessão mais que especial programada no CachoeiraDoc. É um filme de cinco horas e meia que nos coloca no epicentro da vida no Iraque, dividido em dois momentos: antes e depois da invasão bélica norte-americana.

Mas Abbas Fahdel não só abre as portas da realidade do seu país, captada pelo seu olhar, como nos apresenta esse microcosmo a partir da sua própria casa e família, acompanhando a vida dos que lhe estão perto. Talvez por essa proximidade o cineasta tenha demorado tanto para nos apresentar esse filme pronto, bem distante do ano de 2003 quando fez as últimas imagens, logo após a invasão americana.

Há a dimensão volumosa do próprio material filmado, mas também a dimensão emocional, certamente um abalo forte para o cineasta e um ato de coragem por pôr em cena a tragédia que é ter sua vida atravessada pela guerra, algo que bate no público de forma muito intensa, mas sempre em outra medida, é claro.

A primeira parte do filme é um riquíssimo panorama da vida cotidiana em Bagdá. Evolui da rotina familiar do cineasta, os pequenos afazeres e encontros dentro de casa, e depois ganha as ruas, o rosto do povo, seu trabalho, sua inscrição numa paisagem que não será mais a mesma. O filme também cresce em tensão a partir de uma invasão que se torna iminente, uma guerra que ganha aos poucos o conhecimento do povo e vai tornando-se cada vez mais real. Para espectadores não iraquianos é também um momento de aproximação com cultura e costumes tão diversos, muitas vezes filtrados por olhares exóticos, turísticos e limitadores que encontramos em muitos discursos por aí – e isso é inerente a qualquer olhar que lançamos para outro país ou cultura.

É muito forte ver essas imagens nos dias de hoje quando já sabemos o que espera aquele país, a barbárie que virá. Há desde imagens na televisão de Saddam Hussein afirmando estar pronto para a batalha e certo da vitória, até garotas brincando e rindo colocando fraldas na cara como uma possível solução em caso de explosões de bombas de gás.

A montagem exemplar dessa parte do filme avança da vida comum àquela que começa a sondar a possibilidade de guerra, muitas vezes desacreditada, até tornar-se um assunto de preocupação geral e então emana como algo palpável. É como se soubéssemos desde sempre aonde tudo isso chega, mas sem querer encará-lo – e talvez a duração alongada seja um alívio momentâneo nesse sentido. Há também a presença do sobrinho de Fahdel, o garoto Haidar, mas falarei dele posteriormente.

A segunda parte do filme nos coloca numa perspectiva dupla: mostra a destruição que já esperamos ver depois dos confrontos, mas também surpreende um tanto. Isso porque a vida segue em Bagdá, a cidade resiste, as pessoas continuam a trabalhar, frequentar a universidade, sair nas ruas, nem tudo é ruína. Claro que isso acontece na medida do possível, daquilo que restou de pé, da vontade de seguir que ainda emana de muitos, mas a rotina nunca mais será a mesma. A cidade e sua vida não foi dizimada, mas a dor é constante e presente. Os que ficaram e sobreviveram lidam com a perda e o sentimento de ausência.

Daí que uma das maiores forças de Terra Natal é nunca filmar a barbárie em si – na verdade os conflitos bélicos mais intensos já acabaram, e os americanos já dominam o país. O diretor não mostra o caos, mas o caos está lá de alguma forma, presentificado a todo instante, aonde quer que o cineasta vá, pelas histórias das pessoas na rua, pelos escombros e os restos do que sobrou e resistiu ao fogo, pelas perdas e dores dos quais o filme não deixa de revelar, pelas marcas no corpo e na paisagem desfigurada.

Terra Natal não está preocupado em soar piegas e urgente, denuncista e choroso, porque seu tempo é outro, de mais maturação e penetração numa realidade difícil de mensurar e adentrar quando não se passou por aquela situação – talvez deslize no espetaculoso quando explora as cicatrizes de uma criança encontrada na rua, por exemplo. Mas ao mesmo tempo o filme não deixa de comover por aquilo que aquelas imagens representam e evocam, pela força que elas encerram. Um dos momentos mais dolorosos, pela sua significação, é quando o diretor visita um antigo estúdio de cinema e se depara com uma série de rolos fílmicos queimados, destruídos, irrecuperáveis; as imagens feitas por um povo, registro de sua cultura e de um tempo, fagulha de vida e criação, destroçados pela guerra. É triste ver o cinema documentar a morte do cinema. Porém, as memórias e as marcas do homem não são mais importantes do que os próprios homens, forçados a viver nesse contexto de dor e ausência, algo mais triste ainda de encarar.

E então chegamos a Haidar, o sobrinho de Fahdel, que atravessa toda a narrativa do filme e marca presença como personagem que cresce cada vez mais como sujeito político, testemunha obrigado a ressignificar as novas imagens e situações que lhe são confrontadas, que lhe atravessam a vida de forma cruel. Numa decisão duríssima, tão sincera e dolorosa por parte do diretor, o filme prenuncia, lá na metade do primeiro segmento, o destino trágico que o garoto vai encontrar, colocando o espectador num estado de inquietação maior.

Esse movimento representa a essência de uma história que a todo instante trabalha com as imagens e percepções que já trazemos de antemão, mesmo que elas não deixem de nos surpreender em muitos momentos, prefigurada na História, mas intensificada pelo trabalho insistente de Fahdel. É como a apuração de um olhar carregado de dor e determinação.

Haidar visita um lugar bombardeado onde pessoas morreram, então transformado numa espécie de galeria a ser visitada e lembrada como lugar de horror. Ele aponta para fotos de corpos mortos de crianças que ali estavam, e a cena dói como prenúncio fatídico de um futuro interrompido para Haidar. É o prenúncio do horror que temos de ver, não acreditar, torcer para ser diferente, mas no fim enfrentar, de alguma maneira, com toda sua crueza. É no mínimo uma experiência emocional devastadora, mas sempre será também necessária.

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