CachoeiraDoc – Parte III

Jia
Zhang-ke é hoje um cineasta sensação no círculo alternativo quando se fala em
cinema mundial. Seu olhar aguçado sobre a China atual em vertiginosa
transformação é de uma agudeza e melancolia latentes. Uma beleza ter a
oportunidade de ver alguns de seus filmes na programação do CachoeiraDoc. 
Memórias de
Xangai
(Hai Shang Chuan Qi, China, 2010)
Dir: Jia Zhang-ke  
 
Uma
grande preocupação temática tom lugar central na obra de Jia Zhang-ke:
a modernidade que chega à China modificando drasticamente o espaço geográfico e
com ele vai levando a história de um povo. Quando se detém em
observar a transformação urbana em Memórias
de Xangai
, Jia parece antever duas cidades: a moderna, porém cinzenta, que
engole a antiga, ainda povoada de memórias.
E
mais importante que olhar para a cidade, é prestar atenção justamente no que as
pessoas têm a dizer sobre seu passado.
Em Memórias de Xangai, o diretor
colhe depoimentos de várias pessoas que relembram episódios de suas vidas
naquela cidade, importante centro comercial por conta de sua via portuária. Especialmente
aqueles cujas famílias tiveram de fugir da Revolução Cultural promovida pelo governo de Mao Tsé-Tung, indo parar em Hong Kong e Taiwan.
É
a partir desse movimento que ele reconstrói a própria história de Xangai, passando
por turbulências político-culturais e fluxos migratórios com o passar do
tempo. Através das narrativas e memórias particulares, afetivas mais que tudo, o
cineasta alcança as dimensões históricas de um país. Pinça no passado
narrativas que correm o risco de sumir no futuro.
Zhao
Tao, a atriz fetiche do diretor, aparece em cena como um espectro que percorre
a velha cidade, justamente aquela que deixa ver jogados nas ruas os destroços de
construções antigas. De modo figurativo, é dali que ela parece recolher essas
memórias diluídas no tempo.
E
também no próprio cinema, que ganha importância fundamental como preservadora de
imagens de um tempo a não se esquecer. É famosa, e relatada no filme, a ida de
Michelangelo Antonioni ao país oriental para rodar um documentário sobre a Revolução de 1949 mas que acabou denunciando a China “real” e banido na país. Ou a incursão do celebrado
cineasta taiwanês Hou Hsiao-hsien quando rodou Flores de Xangai.
Jia
Zhang-ke é o cineasta dos escombros, que enxerga com melancolia essa
crescimento acelerado do gigante vermelho. Mas é também o cineasta que sabe
olhar para o humano, para as narrativas dessas pessoas que fazem pulsar a
história de um país, antes que a modernidade a soterre.
Inútil (Wuyong, China/Hong Kong,
2007)
Dir:
Jia Zhang-ke 
 
No
universo da moda e da alta costura chinesa, a famosa estilista Ma Ke tem um
projeto curioso: busca conferir um valor simbólico a peças de roupas artesanais
enterrando-as no solo. É uma tentativa de absorver certa memória antiga
incrustada na terra, representativa da história de uma coletividade que tem
perdido o valor num sistema sócio-político arrasador.
Lembremos
que a China é o país que mais exporta roupas para o mundo, com sua agora fabricação
em larga escala de peças padronizadas e quase descartáveis. É para esse modo de produção
que tomou lugar nessa China neocapitalista que Ma Ke (e Jia, por conseguinte)
olha criticamente. Mas enquanto a estilista permanece em seu estúdio
preparando-se para expor suas peças numa semana de moda na França, ainda que mantenha
um discurso politizado, o olhar de Jia é mais profundo, mais amplo.
Sua
câmera visita e observa, com longos takes,
as fábricas têxteis que agrupa centenas de funcionários mal remunerados
que produzem, em massa, roupas comuns. Numa cena icônica, eles precisam passar
por entre grades para chegar ao local de trabalho. Operários sorrateiros,
parecem aprisionados num sistema trabalhista cada vez mais desumanizado e
redutor.
Jia
viaja também para sua terra natal, Fenyang, no interior do país onde ainda
subexistem costureiros e pequenos alfaiates que suprem as simples necessidades
de vestimentas das pessoas locais. Mas esse é um ofício que está desaparecendo,
pois ganha-se mais trabalhando como mineiro num país que tanto valoriza a
construção civil. Nessa nova condição de trabalho, por entre a terra, os
mineiros são os verdadeiros detentores de saberes e histórias antigas, gente
comum, dona de uma memória que tem virado pó nesse processo cruel de
modernidade da China.
É
aqui que a proposta artística de Ma Ke parece ser escancarada e posta em xeque pelo filme.
Aqueles mineiros estão, literalmente, cobertos de terra, junto com suas vivências pessoais e afetivas, correndo o risco de desaparecer diante do gigante chinês que sufoca
as vozes do passado em nome do progresso, um dos grandes temas da obra de Jia
Zhang-ke.
Os
corpos desses homens soterrados da terra (em mais de um sentido), quando se juntam para se
banhar, lembram as modelos que vestem as roupas soterradas de Ma Ke. Mas esses
homens aqui não aparecem estáticos em pedestais aos olhos de uma plateia
curiosa e fetichista. Quem olha para eles? Sob o signo da terra, Inútil é mais uma observação, sobretudo melancólica, de Jia sobre uma
realidade avassaladora.
24 City (Er Shi Si Cheng Ji, China/Hong Kong/Japão,
2008)
Dir: Jia Zhang-ke 

Com
24 City, Jia Zhang-ke parece operar
no mesmo registro da coleta de depoimentos visto em Memórias de Xangai. O foco agora são as histórias dos trabalhadores de uma antiga fábrica estatal de munições. Toda ela está sendo
demolida para dar espaço a um complexo habitacional de luxo.
O cineasta vai em busca dessas memórias porque, em
nome do progresso, o país tem demolido, literalmente, suas antigas construções
para dar lugar a uma China moderna, aos moldes das grandes metrópoles mundiais.
Em contrapartida, deixa de lado as narrativas afetivas dessas pessoas anônimas,
que carregam vestígios da própria História da China. Tem-se aqui, portanto,
mais uma variação de uma temática cara ao cineasta chinês.
Mas o mais curioso aqui é que alguns desses
depoimentos são encenados por famosos atores chineses, ainda que baseados em
falas “reais”. Dessa forma, o cineasta põe em xeque a representação do real e o
mistura com encenações. É uma marca presente em sua obra essa hibridez de registros,
dado que Jia trabalha com questões de uma realidade presente, latente.
No entanto, essa proposta parece fazer mais sentido
para o espectador
chinês que reconhece mais facilmente esses atores. De qualquer forma, a força
dos testemunhos enche de riqueza e melancolia esse emaranhado de histórias.
Exala sinceridade de todas elas, encenadas ou não. Assim como em Memórias de Xangai, o diretor não tem
receio de utilizar longos depoimentos para a câmera.
Curioso
que no meio dos relatos, uma tela preta entrecorta as imagens, como se o
cineasta desse a impressão de que a fala fosse acabar ali. Mas ela volta,
permanece viva, como deve permanecer na História oficial a história particular,
coletiva, de um povo. É nesse conflito constante que a obra de Jia opera.

Talvez
em 24 City o diretor tenha criado uma
das sequências mais icônicas e representativas de sua carreira (rivalizando com
aquela de Em Busca da Vida em que um
prédio alça voo): quando umas das paredes da fábrica é demolida, a poeira sobe
e se lança em direção à câmera. O letreiro de um poema de Yeats diz “As coisas
que pensamos e fizemos/ se espalham antes de desaparecer/ como leite derramado
sobre a pedra”. A China põe abaixo essas memórias, mas a câmera de cinema está
lá para captar essas partículas de poeira e História que se esvaem no tempo.

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