CachoeiraDoc – Parte III

Retratos de
Identificação

(Idem, Brasil, 2015) 
Dir:
Anita Leandro


muitas histórias e relatos de guerrilheiros e pessoas que, combatendo os
desmandos do governo militar brasileiro, acabaram sendo presos e torturados nos
porões sujos da ditadura. Muitos deles  foram assassinados ali, sem que as famílias até
hoje tenham resposta sobre seu paradeiro. Retratos
de Identificação
é mais um desses filmes, tão importante quanto os demais, mas com
um diferencial que o torna bom cinema: não romantiza nem torna piegas sua
história, apostando na objetividade e dureza do relato que tem pra contar e, principalmente,
nas peças que usa para isso.
Talvez o grande achado do filme está no modo como faz uso de uma série de
documentos até então engavetados nos arquivos escusos que fazem parte da
memória ocultada – e muito até já destruída  – que os militares produziram durantes os anos
de opressão. A diretora Anita Leandro e sua equipe empreenderam busca e
pesquisa minuciosas por esse material a fim de se munir de um arsenal de documentos
que possuem a chancela oficial do governo militar e sua máquina institucionalizada
de perseguição. São documentos que, hoje, tornam-se provas dos crimes cometidos
ali.
Porém
mais do que apenas mostrar esses documentos, Retratos de Identificação explora-os.
Não é o caso deles serem meramente ilustrativos, mas sim narrativos na medida
em que dão conta de narrar grande parte da história dos personagens, de ensaiar
seus passos no trajeto torto de luta e resistência, de fuga e desolação. Mesmo
quando é possível questionar e contrariar o que vai sendo mostrado, eles estão
lá como evidências concretas de uma versão que precisa vir à tona.
Tudo
isso para contar a história de Maria Auxiliadora e Antônio Roberto, um casal de
guerrilheiros que acolheu um companheiro de luta em um aparelho no Rio de
Janeiro; acabaram sendo perseguidos e presos. Chael, o amigo, vai acabar morto por conta do tratamento violento recebido da polícia. O casal segue caminhos diferentes na prisão, até o exílio dela na Europa onde conhece outro
companheiro.
São
aqueles que ainda vivem atualmente – Antônio Roberto e o último companheiro
dela, Reinaldo Simões – os únicos a quem a diretora ouve no filme para
entrelaçar a narrativa. Não é o caso aqui de buscar uma polifonia de vozes
depoentes. Retratos de Identificação basta-se com o pouco que tem muito a
revelar.
A
trajetória de luta e resistência contra o governo opressor também é o de desgaste
físico e emocional que essas pessoas carregam para a vida toda. Mas o filme só
reforça o quanto o confronto com essas imagens e materiais – muitos deles
desconhecidos dos próprios envolvidos –, o confronto com os relatos que ali estão contidos, são vitais para esclarecer muita coisa e buscar o caminho
justo da transparência. Mesmo quando na tocante e forte cena final o personagem
sai do quadro para não desabar emocionalmente, a câmera permanece ligada,
pois o relato precisa seguir, a verdade tem de estar à disposição.
Mais do que Eu Posso Me Reconhecer (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Allan Ribeiro 
Mais do que Eu Possa Me Reconhecer é uma produção de poucos recursos e
equipe. Sua originalidade está na maneira como filma um cotidiano e acaba
fazendo uma grande reflexão sobre o autorretrato e as imagens que fazemos de
nós e dos outros, em muitos sentidos.
Darel Valença Lins é um artista plástico que vive sozinho numa bela casa
no Rio de Janeiro. Amante de cinema, não só cultiva o hábito de ver filmes
clássicos, como tem uma obsessão em brincar com sua pequena câmera digital.
Filma trivialidades que podem ser vistas como videoartes ou meros recortes de
encenações prosaicas e teatralizações de pequenas cenas.
Ribeiro,
ao invés de usar um aparato profissional, prefere filmar também com uma câmera
analógica, o que o aproxima das imagens que Darel realiza. O filme acaba sendo
um retrato não só de certa intimidade e das percepções desse personagem, mas
também uma observação sobre a profusão de imagens – muitas delas descartáveis –
que criamos a todo tempo no mundo atual da tecnologia móvel.
A
cena inicial do filme problematiza muito bem essa questão: Darel mostra para a
câmera de Allan como maneja sua própria câmera portátil. Filma o diretor e o
operador de som (Douglas Soares) filmando a ele, Darel e sua câmera. Mostra a
rápida cena que captou e, com a mesma facilidade, apaga em seguida as imagens
realizadas. Ao mesmo tempo, adentramos esse espaço repleto de figuras
produzidas. Estão lá na casa do artista, engavetadas, os DVDs caseiros em que
ele armazena os vários filmetes e exercícios fílmicos que faz; e também marcam
forte presença, espalhados pelas paredes, os diversos quadros e gravuras que
Darel pinta no seu fazer profissional.
E é de posse desse arsenal imagético que Ribeiro constrói a tessitura de
seu filme, incluindo na montagem final imagens do acervo do próprio Darel.
Filmando de maneira analógica, o diretor cria unidade entre essas imagens e
reforça seu tom cotidiano.
Num momento em que o termo “selfie” já foi incluído no
vocabulário brasileiro, Mais do que Eu
Possa Me Reconhecer
questiona o que fazer com essas imagens que se produz
aos montes no dia a dia, de si e dos demais, e demonstram a força criativa da
qual elas podem estar carregadas. O encontro com esse homem e sua maneira
serena (talvez banal?) de encarar a vida retira a força de um personagem
atrativo, e o filme passa a interessar bem mais nas relações entre imagens que
se confrontam ali. 

Quando menos se espera,
Darel faz uma observação sobre os autorretratos de Rembrandt, perseguidos em
significação por muito tempo, e sem sucesso, por parte de Jean Genet. A
conclusão de que o autorretrato está também – ou principalmente – na imagem que
buscamos fazer do outro ressignifica em muito o que vimos até então no filme.
Do pouco se faz muito e do banal, arte sensível, imagem do outro que também
revela o eu.

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