CachoeiraDoc – Parte I

A Gente (Idem, Brasil,
2013)
Dir:
Aly Muritiba 

Durante
sete anos, o cineasta Aly Muritiba foi agente penitenciário. Agora, retorna ao
antigo ambiente de trabalho para filmar a rotina desses profissionais – o filme
fecha a chamada Trilogia do Cárcere, formada pelos curtas-metragens A Fábrica e Pátio. É o universo que Muritiba conhece bem e quer discutir, aqui
lançando olhar sobre um grupo de profissionais muitas vezes estereotipados.
 
A Gente é um filme de
tal forma inserido num contexto pessoal, tão seguro de seu lugar de interlocução,
que isso se reflete no próprio rigor formal de sua construção. A câmera parece
estar sempre no lugar certo, nos momentos-chave em que os agentes se defrontam
com questões importantes de seu trabalho que surgem ali no dia a dia. Revela a possibilidade de encenação a que o diretor se permitiu na construção da oba. Mas sente-se,
sobretudo, um cineasta seguro para lançar um olhar crítico sobre o mundo carcerário.
Jefferson
(também conhecido como “Walkiu”) torna-se o personagem guia dessa narrativa. O
filme começa com ele assumindo o posto de agente chefe da seção de inspeção. Ele faz a ponte entre a direção e o trabalho prático de inspeção, que vai desde lidar
com informações contidas numa carta de uma esposa para um presidiário, até a revolta
de um dos detentos que não quer permanecer na sua cela.
Se
de início A Gente nos parece um filme
de pura observação, no melhor estilo do cinema direto, logo é possível abandonar
essa percepção porque o filme mira em algo muito específico, marcando posição:
a dificuldade interna de fazer funcionar o sistema carcerário brasileiro, por
conta de vários aspectos (materiais, humanistas, trabalhistas).
A
observação está lá, de fato. Entendemos, aos poucos, quem são aqueles sujeitos,
certas dinâmicas de seu trabalho, a rotina diária de um agente carcerário. Mas longe
de uma mera reserva, o filme é muito contundente na sua tomada posição. Para
isso, não se desvincula desse protagonista que luta para fazer “certo” seu
trabalho. Esbarra em barreiras que expõem a desordem de um sistema inchado,
complexo e desafiador.
Branco Sai,
Preto Fica

(Idem, Brasil, 2014)
Dir:
Adirley Queirós 

 
O diretor Adirley Queirós já havia questionado a
ocupação do espaço urbano em seu filme anterior, A Cidade é uma Só?. Retoma agora a questão, colocando em
perspectiva o lugar do negro pobre numa sociedade segregadora, através de um filme
surpreendente com suas incursões fabulares.
Branco Sai, Preto Fica não se trata
de uma ficção científica clássica (nem havia recursos para tal), mas utiliza os
elementos do gênero, inicialmente, para provocar estranhamento. Mas no fundo
tem muito de verdade sobre uma realidade latente que se vive hoje. O filme utiliza
histórias de personagens reais, socialmente marginalizados, que vivem na região
da Ceilândia, em Brasília.
Um deles anda de cadeira de rodas e comanda uma
rádio clandestina, outro vive com uma perna mecânica. São negros e carregam o
estigma da “deficiência” física sofrida durante uma repressão policial
acontecida num baile black na década
de 1980. São um retrato também da marginalização a que foi relegada a população
mais carente e periférica das cidades satélites de Brasília.
Porém, o cineasta inclui em sua narrativa elementos não
só da ficção enquanto encenação de uma realidade vivida por aqueles sujeitos numa
sociedade excludente, como subverte essa realidade por meio da ficção
científica. Os personagens parecem habitar um mundo distópico, que os
separa de uma Brasília idealista, longe de seu alcance.
A vingança contra esse sistema opressor vem em forma
de confronto que ganha contornos apocalípticos (vide o final literalmente explosivo
do filme). É a forma contundente, via elementos da ficção científica, misturados
com os de resistência e repulsa (representados pela música, no rap e no forró) em que o diretor tensiona essas questões, dando voz e vez a personagens amputados e imobilizados não só fisicamente, mas eu seus próprio
direitos cívicos. 

Do ponto de vista narrativo, há, no entanto, certa
desordem na maneira como os acontecimentos se sucedem no filme, sem linearidade
fácil, esbarrando na sua condução estabanada. Mas a força de suas imagens, a
criação despojada e as questões sociais, urbanas e políticas colocadas no filme
são tão vitais que tornam Branco Sai,
Preto Fica
uma obra sem igual no panorama cinematográfico brasileiro.
 

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