Batalhas de vida

A Guerra Está
Declarada

(La Guerre est Déclarée, França, 2011)
Dir:
Valérie Donzelli
Se
Christophe Honoré parecia ser o maior e mais festejado herdeiro hoje da
Nouvelle Vague (Philippe Garrel não conta porque já filmava desde aquela
época), ele ganhou uma bela companhia com Valérie Donzelli. Ou pelo menos, esse
filme da diretora está tão embevecido pelo espírito esteticamente libertário do
movimento francês que chega ser impossível não enxergar Godard ali nas suas
imagens que surpreendem a cada novo corte.
Mas
talvez diferentemente dos filmes de Honoré, em que paira sobre suas narrativas
uma atmosfera que remete romanticamente a um tempo pretérito (especialmente nos
últimos Amantes Constantes e A Fronteira da Alvorada), Donzelli, ao
contrário, parece fazer um filme bastante moderno, pop, jovem. Mas também muito
maduro, apesar do inusitado da situação.
Esse
estranhamento reside no fato de ser um filme atual que se aproveita bastante do
legado da Nouvelle Vague dentro de uma temática estranha ao movimento: o drama
familiar envolvendo doença de um ente querido. O bebê do casal Juliette e Roméo
(os atores e roteiristas Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm, ela também a
diretora) começa a apresentar problemas de desenvolvimento que aponta para um
tumorno cérebro. Está dada a largada para a guerra de uma vida
O grande destaque aqui é como esse tom é reinventado pela narrativa
frenética e nunca se torna pesaroso. No fundo, existe uma sensação de enjoy it, um casal jovem enfrentando
situação complexa, mas mantendo ainda assim uma certa felicidade de viver, com os
prós e contras do casamento e da criação de um filho, para além da própria
doença. Acaba sendo um contraponto interessantíssimo ao estado de intranquilidade
do momento, tour de força que põe à prova não só a união do casal, mas da
família de ambos, todos juntos e prontos a ajudar.
O
filme faz um belo eco com o também recente e ótimo 50% em que jovem lida com um câncer num filme bastante
espirituoso, apesar de tudo. Mas o filme francês possui uma vitalidade
narrativa de fazer inveja, cada próxima cena, o próximo corte, pode ser uma
surpresa, como é o caso do momento que mostra como o casal se conheceu até gerar
um filho, ou quando Juliette corre no hospital desesperada, ou quando ela conta
a todos sobre o tumor, ou a expectativa para o resultado do primeiro
procedimento médico. Enfim, o filme é recheado de ótimos momentos, com um uso pontual
de temas musicais clássicos que pegam desprevenido quem imaginava um filme mais
denso e obscuro (pelo contrário, é um filme bem colorido plasticamente).
Mas
ao mesmo tempo em que pontuam no filme esses arroubos de animação, existe todo
um cuidado em nunca esconder os risos e as más notícias que vão surgindo, indicativo de que a situação não está sendo minimizada pelo filme. Na forma
como esse jovem casal lida com assuntos tão complexos, A Guerra Está Declarada é também um rito de maturidade, preparação
para as batalhas que ainda estão por vir, sem sobreaviso.

6 thoughts on “Batalhas de vida

  1. Ah, Rafael. Eu adorei esse texto. Não conhecia esse filme, mas me interessou muito a forma como ele parece tratar uma narrativa que é bastante delicada. Vou tentar assistir.

  2. Bom texto, muito bem escrito e analisado!
    A trilha sonora e o ritmo do filme tem o melhor dele. E como disse, é sempre uma surpresa a cada cena! Apesar de ser um tema já bem debatido em filmes, ele consegue mostrar de uma forma um tanto diferente a já clássica história da luta contra o cancer!
    Até os papéis médicos muito bem desenvolvidos!
    Òtimo filme!

  3. Antonio, dela só vi esse primeiro filme, e já é suficiente pra me deixar curioso para os próximos trabalhos da moça. Honoré também é sempre interessante de acompanhar.

    Kamila, bom que gostou do texto, deve gostar ainda mais do filme quando vir. Uma narrativa surpreendente mesmo.

    Elizio, sabia que você ia prestar devida atenção aos personagens dos médicos. Apesar do tom livre do filme, existe uma seriedade muito grande na forma como retrata as questões da doença e de como se lida com isso. Um filme maduro, no fim das contas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos