Bafici: Oitava Série

Recentemente, Oitava Série causou surpresa ao vencer o prêmio de roteiro original pelo Sindicato dos Roteiristas norte-americanos mesmo o filme tendo sido esnobado no Oscar. Soma-se a isso uma série de outros prêmios, especialmente no campo do cinema independente, mais a admiração de muita gente por aí. Do meu posto, fico curioso como um filme que caminha por lugares tão comuns e já tão explorados consegue angariar tanta simpatia.

O mais seguro a se dizer e o mais consensual é que Elsie Fisher é um achado nesse filme. A jovem atriz coleciona poucos trabalhos no cinema, mas dá a exata dimensão dos dilemas de Kayla Day, uma adolescente moderna e seus conflitos de aceitação e amadurecimento. Vive com o pai solteiro (Josh Hamilton), começa a se interessar amorosamente por garotos e tenta construir laços de amizades com as meninas mais populares do colégio. Tudo isso acarreta em fracasso, enquanto o pai tenta, sem sorte e sucesso, participar da vida da filha.

Oitava Série caminha tanto pelo lugar comum da jovem tímida-e-deslocada-em-conflito-com-o-pai-solteiro-que-não-sabe-lidar-com-a-filha-adolescente que a força dele se esvai muito rápido. Muito porque o retrato que o filme faz da protagonista e dos demais personagens que a circundam seguem um padrão caricato e muito sem invenção: estão lá o pai enrolado que não consegue estabelecer diálogo com a filha, o garoto bonitão e popular por quem Kayla se apaixona, a colega de escola patricinha esnobe que a despreza.

Nas chances que o filme tem de dar uma guinada em direção oposta ao clichê dos tipos caricatos, parece brotar um receio ou bloqueio para dar continuidade a algum tipo de subversão. Um exemplo é o momento em que Kayla mente para o garoto em que está interessado sobre possíveis fotos “quentes” suas, uma alternativa corajosa do roteiro, capaz de pegar o público de surpresa pelo ímpeto inesperado da garota. Só que tal desdobramento é esquecido logo em seguida e o rapaz some da trama. Vemos escapar ali um caminho interessante e arriscado que poderia tirar o filme da rota da mesmice. As opções que o diretor toma vão sempre pelo mais básico.

Também o diretor Bo Burnham, nesse seu primeiro trabalho para o cinema (ele cultiva uma carreira paralela como ator) carece de maior vibração, para além do retrato fiel de uma juventude desconjuntada. Não é que a dimensão de deslocamento conferida pelo filme seja equivocada, mas é que ela esbarra em escolhas e caminhos já traçados antes por outros filmes dentro desse mesmo subgênero.

Não é difícil pensar em um filme recente e de tema semelhante como Quase 18, dirigido por Kelly Fremon Craig, e que alcança lugares muito mais sagazes e com mais frescor nesse retrato do florescer da adolescência (os filmes trazem protagonistas bem opostas, o que torna a comparação um tanto injusta). Mas é que há ali uma precisão narrativa, um texto delicioso e personagens inspiradíssimos (o professor vivido por Woody Harrelson é ótimo), além de uma Haille Steinfield dando um show de atuação, dessas de detalhes riquíssimos.

No fundo, Quase 18 é um filme muito maduro sobre uma jovem nada madura que já passou da fase de se dar conta disso. Enquanto isso, Oitava Série insiste nas fragilidades e anseios frustrados de uma adolescente solitária, como se isso fosse um calvário pela qual ela tivesse de passar a todo custo. E com o qual nos regozijamos.

Oitava Série (Eighth Grade, EUA, 2018)
Direção: Bo Burnham
Roteiro: Bo Burnham

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