Bafici: God of the Piano

Anat (Naama Preis), uma jovem mulher, se apresenta ao piano para uma plateia; sua expressão é de firmeza e concentração. Vemos que uma água escorre pelos seus pés. A pressão do concerto a fez urinar? Logo em seguida, há um corte e estamos dentro de um carro. Anat vai no banco de trás segurando as contrações: ela está grávida, a bolsa estourou, o caminho é o do hospital. Basta essa rápida sequência inicial para dar o tom de God of the Piano, filme do israelense Itay Tal, encerrando ali ideias que serão desenvolvidas no decorrer do filme, desde o senso de incertezas até a obstinação que caracteriza a postura dessa mulher.

Ela é de uma família tradicional de músicos clássicos, gente que leva a sério a carreira de pianista – tem um pai famoso nessa seara –, dessas linhagens que desejam perpetuar o talento musical no seio familiar. Sobre o filho de Anat recai exatamente essa “responsabilidade”, e é a tentativa do garoto de fazer uma carreira musical que iremos acompanhar quando o filme salta anos mais tarde e o encontramos por volta dos dez anos de idade.

Ele demonstra ser um jovem aplicado e realmente deseja seguir os passos da família, treinando inadvertidamente ao piano a fim de passar nos exames para entrar no tão sonhado conservatório musical. God of the Piano lida o tempo todo com pressões autoimpostas que regem um senso de sucesso e vitória pessoais, neste caso herdados dos laços sanguíneos. Anat, apesar de ser também uma boa pianista, não é excelente, não alcança o nível de expertise que o pai almeja, portanto ela aposta tanto no sucesso do filho e luta para que isso se concretize.

O diretor e roteirista Itay Tal, no primeiro filme que dirige, constrói com cuidado cada cena e ainda se mostra mestre em omitir informações sem comprometer a narrativa, deixando muito do sentido das coisas para que o espectador as complete. Há, sobretudo, uma segurança muito evidente na maneira como ele conduz o drama e os desdobramentos que começam desde a cena inicial. Ainda no hospital, após o parto, Anat se depara com um dilema (e uma subsequente escolha) que trará consequências no futuro.

Tudo passa pelo olhar e pelas atitudes determinantes da mãe, e o filme desdobra a partir daí um círculo vicioso de reparações cujas implicações são irrefreáveis. Itay Tal domina e entende muito bem a narrativa que tem nas mãos, assim como a atriz Naama Preis é exemplar em evocar com gestos muito precisos os desconfortos e a tenacidade de uma mãe. Há algo de forte no seu olhar, capaz de transmitir a persistência da mulher diante do desafio que é suprir, sobretudo, carências emocionais, inclusive dela própria, presa naquela estrutura de retroalimentação. No entanto,  diante das vontades e persistências humanas, o filme parece dizer que uma força suprema, um deus maior, o Deus do Piano, tem suas próprias convicções sobre os caminhos do sucesso. Difícil concorrer com um deus.

God of the Piano (Israel, 2018)
Direção: Itay Tal
Roteiro: Itay Tal

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