Avalanche emocional

Força
Maior
 (Turist,
Suécia/França/Dinamarca/Noruega, 2014) 
Dir:
Ruben Östlund

Casal
e dois filhos pequenos de férias numa estação de esqui nos Alpes franceses;
família aparentemente feliz em clima inicial de diversão, apesar de pequenas
desavenças e incidentes entre eles. Mas a noção de “incidente” vai ser
redesenhada por esse filme sueco, curioso estudo de personagens confrontados
com suas fraquezas de forma a mais curiosa possível, engraçada e trágica ao
mesmo tempo. Força Maior é um filme que desestabiliza.
A
famosa cena da avalanche é uma dos grandes hits
do filme, momento forte enquanto imagem estática. Deixa não só os personagens
em cena, mas também o espectador na cadeira, angustiados pela forma como a gravidade
da circunstância cresce desesperadamente. Mas é a atitude de um dos personagens
diante dessa situação limite que vai chacoalhar o sentimento de unidade dessa
família.
Aos
poucos uma crise se instala naquele conjunto. Esposa confronta marido, ambos não
sabem como lidar e expurgar seus sentimentos, muitas vezes contraditórios;
filhos se tornam cada vez mais arredios e agressivos, reflexo da inteligência
emocional das crianças que pressentem algo fora do lugar. Mas se existe aqui um
material rico para se criar um grande drama humano, Östlund prefere o caminho
da confusão de sentimentos.

Encontra
valor num tom cômico e inusitado, tipo de humor negro que pontua exemplarmente
o ridículo e o absurdo daquilo que se desenha como conflito de homens e
mulheres diante de seus medos e inseguranças, inevitavelmente. O diretor
prefere, com muita segurança, o uso de planos estáticos e demorados para criar um
efeito de desconforto muito bem-vindo nesse tipo de história, e também ajuda a
pontuar a iminência dos dramas que vêm a seguir.
Força
Maior
 parte
de uma poética do desconforto que desordena não somente essa família, mas
aqueles que os cercam – mais cenas impagáveis vêm do casal de amigos que passam
a discutir a própria relação no processo de ajuda e discussão da relação do
casal principal. 

Östlund
intercala o filme com um tom operístico, uma grandiosidade que não subestima os
dramas pessoais – eles fazem parte da vida, ora –, ao mesmo tempo em que faz um
comentário sarcástico sobre aquela situação, sobre a tempestade num copo d’água
que surge ali sem que os personagens se deem conta disso. Filma exemplarmente
um efeito avalanche que atinge a rotina emocional daquelas pessoas.

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