Anjos caídos

A
Parte dos Anjos 
(The Angel´s Share, Reino Unido/França/Bélgica/Itália,
2012)
Dir:
Ken Loach

Entre
um filme de veia mais politizada e outro mais despretensioso, Ken Loach vai
construindo sua extensa filmografia. A
Parte dos Anjos
pode ser reunido nesse segundo grupo, muito embora a
comédia e o comentário social caminhem juntos, sem que um se sobreponha ao
outro, num equilíbrio que nem sempre se consegue facilmente. O mérito de Loach
é mantê-lo bem, apesar de o enredo bambear em alguns momentos.
Mas
com muita segurança, Loach nos conta mais uma história de outsiders, dessa vez mirando em jovens que cometem pequenos crimes
e infrações, condenados a prestarem serviços comunitários. Começa apresentando
um grupo de pequenos infratores, mas é a um deles que o filme vai se apegar.
Robbie (Paul Brannigan) escapa
por pouco da prisão depois de uma agressão pesada e, pelas mãos do instrutor Harry
(John Henshaw), tem contato com
a produção e provação de uísque, revelando um talento nato como provador da
bebida.
Os
personagens estão entre o limite da vida delinquente e a possibilidade de reintegração
social com dignidade. Daí que o filme, por entre a comédia que beira o
politicamente correto, encontra momentos mais densos, é a mão “realista” de
Loach se fazendo presente. Alguns dessas situações carecem de uma maior
sutileza (como quando Robbie é confrontado com o rapaz que agrediu), como se o filme
fizesse questão de lembrar a cota de tragédia que a história possui.
Porque, no fundo, existe carinho imenso por esses
personagens, o roteiro nunca os condena, na medida em que ainda os leva a
cometer atos impróprios, ainda mais na sua condição de vigiados pela Justiça, em
prol de um bem maior. E se é na comédia de erros que o filme mais aposta,
acerta bem em suas tiradas, sempre com muita leveza e tom despretensioso. A Parte dos Anjos é como uma história de
redenção, um olhar tenro para um submundo cheio de mazelas, dificuldades de vida
e facilidades para o crime, mas com um coração grande apontando para caminhos
mais satisfatórios.

2 thoughts on “Anjos caídos

  1. Puxando na memória, vi apenas dois filmes do Ken Loach ("Ventos da Liberdade" e "À Procura de Eric"). Fico espantado com o ritmo de trabalho dele, uma vez que nem é tão grande assim o intervalo de tempo entre "Rota Irlandesa" e este "A Parte dos Anjos". Gosto dos momentos mais descontraídos de "À Procura de Eric" e espero que este seu novo filme também ofereça esse humor.

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