Anarquia pulsante

Zero de Conduta (Zéro de Conduite: Jeunes Diables au Collège, França,
1933) 
Dir:
Jean Vigo
Assistir
a Zero de Conduta à sombra de sua
obra mais festejada, O Atalante, é
uma experiência interessante de descortinamento de um talento. Existe algo
pulsante ali, um cineasta louco para experimentar com a linguagem do cinema.
Fez isso em pouquíssimos filmes, já que teve uma vida curta e saúde debilitada.
Filmando no que hoje chamaríamos de cinema de guerrilha, Jean Vigo batalhava
para levantar suas obras e colher um olhar original sobre o mundo, algo que
pode ser sentido em cada um de seus filmes.
O
espírito anarquizante dos meninos de um internato, tema desse média-metragem,
parece ter atingido o Vigo cineasta, fazendo sua escola de cinema no próprio
exercício de realização fílmica. Com Zero
de Conduta
, o diretor tateia um meio de expressão cinematográfica da mesma
forma anárquica por não querer se enquadrar em um estilo único e facilmente
reconhecido.
Vivia-se,
à época, o período das muitas vanguardas artísticas que floresciam na Europa, e
Vigo parecia deslumbrado com toda aquela efervescência. Por isso que há em Zero de Conduta algo das pantomimas
imortalizadas nos personagens de Charles Chaplin, a montagem rápida e
inteligente (ainda que algumas cenas pareçam terminar abruptamente), o registro
lúdico que remete à proposta surrealista, enfim, uma série de referências que
perfazem este filme atípico.
O
que poderia ser tomado como uma desordem fílmica, um atirar para muitos lados,
pode ser visto como a mais pura busca pelo estilo, testando as possibilidades
da encenação. Também assim o era A
Propósito de Nice
, seu primeiro curta-metragem, uma sinfonia urbana movida
pelo prazer de filmar a cidade e seus tipos. O refinamento maior ganha forma no
seu último filme, único longa, o maravilhoso O Atalante.

O
mais curioso é que dessa colcha de retalhos, brota em Zero de Conduta uma narrativa muito direta. As situações e pequenos
incidentes somam-se como fatos do cotidiano daquele lugar. Porém os estudantes
engajam-se numa espécie de sublevação da ordem imposta pelos dirigentes de um
ambiente repressor. As brincadeiras que desfiam a moral, as regras e os
desmandos instituídos vão crescendo em destemor, até culminar numa espécie de
tomada de poder.
É
certo que o espírito libertário das crianças possui um engajamento de caráter
“político”, mas sem a consciência de tal ato. A escola (ainda mais um
internato), como instituição responsável por educar o cidadão, assume a posição
rígida com que dita suas regras e impõem a ausência de diálogo. O que aquelas
crianças mais querem é verem-se livres de amarras, essas mesmas que dão vazão a
suas pirraças endiabradas. A busca não é pelo controle do poder em si, mas pela
quebra de uma barreira imposta que não permite a vasão dos instintos infantis
(simbolizados aqui pela brincadeira). 

Curiosamente, há um personagem que parece deslocado: o
novo inspetor que chega para tomar conta dos meninos, mas que parece simpatizar
com suas brincadeiras e algazarra, embora devesse representar o lado da
instituição escolar. Talvez com isso Vigo queira nos dizer que não só as
crianças podem (e devem) guardar esse espírito libertário – embora ali esteja
em sua forma mais pura. A anarquia com que se confronta a severidade da ordem
do mundo pode estar em cada um de nós.

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