Amor que atropela

Instinto Materno (Pozitia Copilului, Romênia, 2013)
Dir:
Calin Peter Netzer 
Depois
dos créditos iniciais sobrepostos em tela preta, corte seco para Cornelia,
filmada em câmera na mão, conversando com uma amiga sobre a ingratidão de seu
filho que mal a vê e a trata mal. Instinto
Materno
é todo assim, direto, sem firulas, tenso, com protagonista
fortíssima, metida numa situação desagradável. É a força dramática dos romenos,
no meio naturalista que eles parecem dominar tão bem, mais uma vez mostrando
que eles fazem um dos cinemas mais interessantes da atualidade.
Barbu
(Bogdan Dumitrache) atropelou e matou acidentalmente um garoto pobre quando
corria de carro na estrada à noite. Logo entra em cena a mãe dele em seu
socorro, fazendo de tudo para livrar seu filho das garras da Justiça. São de
família rica e influente, muitas portas estão
abertas para eles nesse jogo de poder corrompido, o que já revela as mazelas e
disparidades político-sociais de um país que se livrou há poucas décadas de um
regime opressor.
Mas
Instinto Materno é menos um filme
sobre os meandros do sistema jurídico/policial que envolve aquele caso e mais uma
história ancorada numa conturbada relação mãe e filho. Apesar da amargura que
existe ali, Cornelia, interpretada maravilhosamente por Luminita Gheorghiu, ama
incondicionalmente esse filho ingrato. É um estudo de personagem incrível a
forma como o roteiro desenha essa mulher de personalidade forte, autoritária,
consciente de sua posição social e da grande influência que goza dentre os
amigos da alta sociedade.
É
nesse mesmo ambiente burguês que Barbu criou-se e vive então como adulto
mimado que ainda não aprendeu a se portar como adulto. E nem a se livrar da
barra da saia da mãe, embora essas amarras revelam-se de grande incômodo para
ele. O choque entre eles ganha maiores proporções diante da tragédia e do
controle que Cornelia passa a tomar da situação, mexendo os pauzinhos e querendo
assenhorar-se, inclusive, das atitudes de Barbu, da esposa e do ex-marido.
O
filme opera o tempo todo nesse clima de tensão entre os personagens,
misturado à desolação de uma família pobre que perdeu o filho pequeno. Instinto Materno é desde o início um
filme duro, sem piedades. A câmera na mão de Netzer é inquieta tal como o clima
que se estabelece do começo ao fim do longa, tanto pelos embates que Cornelia
trava com todos nessa jornada, especialmente com o próprio filho, mas também no
cinismo testemunhado pelo espectador diante de tantos atropelos emocionais. 

Mas
quando menos se espera, o filme ainda consegue abrir mais nuances em seus
personagens, até então muito marcados em suas personalidades cruas, num momento
final estranhamente emocionante. O encontro de mãe e filho com a família do
garoto morto é dilacerante e transparece, sem muitas máscaras, todo o temor de
uma mãe que faz de tudo para defender sua cria. O cinismo ainda está ali presente,
mas esse tal de amor materno aflora de forma incondicional, suplicante,
doloroso, dominador.

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