A estranheza do horror

Demon (Idem,
Polônia/Israel, 2015) 
Dir:
Marcin Wrona
Num
momento em que o cinema de terror tem angariado algum tipo de atenção mais inventiva
que busca ultrapassar filmes banais do gênero e tem nos entregado obras
realmente interessantes e em algum sentido fora da curva – tais como The Babadook, A Bruxa, Corrente do Mal –,
eis que surge esse filme polonês sui
generis
no nosso circuito, mostra de como o cinema alternativo também vem
se aproximado dos gêneros para fazer algo muito particular, o que não
necessariamente garanta grandes resultados.
Demon provoca certos estranhamentos,
nem sempre tão satisfatórios como os seriam num filme de terror, vindos de
duas frentes principais: um (des)equilíbrio de tom, fazendo com que uma comédia
mais bonachona atravesse o horror, o que o filme essencialmente é, além da
abraçar o inexplicável e o desapego pela fabricação do terror enquanto confronto
com um mal racionalizado.
Na
trama, Piotr (Itay Tiran) está prestes a se casar com Zaneta (Agnieszka
Zulewska). Acabaram de adquirir uma nova casa numa região inóspita; há um
celeiro misterioso ali e também uma ossada enterrada no quintal da casa, enquanto Piotr começa a sofrer algumas alucinações que envolvem aparições
estranhas. É certo que algo de muito ruim ocorreu ali. Grande parte do
filme se passa durante a festa do casamento, em meio ao baile e comilança que
reúne vários convidados da região, entre moradores, amigos e farristas, uma
gama de personagens excêntricos e tipos estranhos.
Logo
o filme vai caminhando para a clara história de possessão. São os melhores
momentos do longa, quando gradualmente essa força maligna começa a tomar conta
do noivo e seu comportamento se mostra cada vez mais estranho e
bizarro, para espanto de todos, inclusive da noiva que vê seu casamento ruir antes mesmo de começar. Isso lembra, em certo sentido, o movimento que leva
ao ápice da possessão – e consequentemente ao exorcismo – visto em Invocação do Mal. Mas aqui, o interesse
do diretor não é apavorar, nem se encaixar nas marcas do gênero.
Demon busca um
caminho próprio para lidar com essa manifestação maléfica, o que inclui
referências pouco trabalhadas, mas citadas na trama, de uma velha lenda judia
de um demônio que toma as pessoas. Há também uma leitura possível sobre a alma inquieta
de alguém que pode ter tido um destino trágico naquele lugar. Mas tudo isso
segue sem muitas confirmações, o que é um ponto positivo para o longa. Talvez
como despiste o filme também invista em passagens que se querem cômicas, associadas
a essa reunião de gente em grandes festas regadas a bebida, farra e flerte. É uma
aposta curiosa, mas que nem sempre funciona tão bem porque somente margeia a
trama, nunca entra de cabeça na história.

O filme está pouco interessado em esclarecer a questão,
preferindo jogar os demais personagens – e o espectador – nas garras do
bizarro, desse estranhamento que nem sempre conta a favor do filme, seja em
busca do horror ou do drama. Há, portanto, uma sensação de vazio que o filme
deixa como impossibilidade mesmo de se racionalizar sobre algo que escapa à
razão humana. Em certo sentido isso é muito positivo quando as faces do terror mostram-se atrativas por si só, algo que ganha menos atenção em Demon.

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