6º Paulínia Film Festival: Parte II

Aprendi
a Jogar Com Você
(Idem, Brasil, 2013)
Dir: Murilo Salles
 

Mais um documentário de observação, mais uma
proposta de cinema direto, mais um personagem no cenário da música em busca do sucesso.
Aprendi a Jogar com Você, de Murilo
Salles, segue o DJ Duda e sua esposa Milka Reis pelas cidades-satélites de
Brasília. Eles fazem algo como uma música de guerrilha e não escondem seu objetivo
principal de ganhar dinheiro e tornarem-se conhecidos.
Se não há nada muito novo nesse tipo de abordagem, há
trunfos aqui: um protagonista muito bom, engraçado, que se doa ao filme, e
ainda uma participação dele longe de ser inocente. Há algo de esperteza nele que não esconde
um falseamento da noção de documentário como registro dessa coisa chamada “real”.
Trata-se de uma proposta quase imoral na maneira
como esse personagem se vira e vira os demais para ir seguindo, ganhando
dinheiro com os shows, promovendo o nome da dupla. Ao mesmo tempo em que o filme
invade a intimidade e os meandros internos do trabalho dele, Duda também se
aproveita para reforçar sua própria figura como homem sagaz, esperto, que corre
atrás, acima de tudo. Uma releitura consciente do ser malandro.
Duas cenas expressam bem essa duplicidade: quando o
casal briga por conta da falta de dinheiro, infligindo culpas e acusações, e a
cena final do filme em que Duda profere um discurso duvidoso diante das
câmeras. No interesse de perseguir um personagem que se encontra na periferia
de uma dada cena musical, o filme abre espaço para esse conflito de forças que
se estabelece na própria encenação.
Neblina
(Idem, Brasil, 2014)
Dir: Fernanda Machado e Daniel Pátaro 

Neblina chega na competição de Paulínia como prata da casa,
único filme local no evento. Bate a impressão forte de que está ali só por esse “acaso”. Como cinema, o filme possui uma série de limitações narrativas e parece
se autossabotar com certas escolhas. O pior de seus problemas é o tom
professoral, acadêmico, permeando toda a projeção com onipresença de narração em off explicativo.
Somos apresentados ao distrito de Paranapiacaba, na
região de Santo André, em São Paulo. As ruínas de uma estação ferroviária,
datada dos anos 1850, construída pelo investimento inglês no Brasil, servem de
mote para os cineastas desenvolverem uma série de relações com o capitalismo
selvagem, com a concentração de poder e desmandos políticos, a exploração dos
recursos minerais dos países periféricos. Ou talvez mais coisas cabem nesse discurso, isso num filme de 75 minutos.
A paisagem que o longa documenta, ruída pelo tempo,
abandonada em meio à densa neblina característica da região, possui uma poeticidade
melancólica, triste mesmo na forma como sentimos o cessar do tempo ali. Mas o
filme pouco aproveita essa atmosfera, primeiro porque insiste em acelerar as
imagens, num recurso de pós-produção questionável; e porque abusa das imagens de
arquivo que dão conta de um resgate histórico extenso, complexo, vomitando
muita informação no espectador. Cansa rapidamente.
Sinfonia
da Necrópole
(Idem, Brasil, 2014)
Dir: Juliana Rojas

Se o flerte de Juliana Rojas como o filme fantástico
e o horror, ainda que sempre anticlimático, é uma marca viva na sua curta,
porém notável, carreira, aqui ele ganha um novo ar. A presença de um cemitério
como personagem central não significa necessariamente pavor. Sinfonia da Necrópole abre-se à comédia
inteligente e ao musical para continuar falando de morte, ou ainda a forma como
os vivos lidam com isso e o respeito para com os que já se foram.
Acima de tudo, um filme muito divertido. É,
certamente, o trabalho mais acessível de Rojas, que entende muito bem essa
proposta jocosa e cria um roteiro menos aberto a interpretações, como era o
caso do muito bom Trabalhar Cansa, dirigido em parceria com Marco Dutra, estreia de ambos no longa-metragem.
Deodato (Eduardo Gomes) é um aprendiz de coveiro
sensível, desmaia quando está enterrando alguém. Passa a ajudar a agente
funerária Jaqueline (Luciana Paes) a recadastrar os túmulos para uma reforma no
cemitério. Começa um flerte desajeitado com ela ao mesmo tempo em que pressente
coisas esquisitas acontecendo entre os túmulos.
O acréscimo do elemento musical tem um tom
assumidamente farsesco e menos espetaculoso. De uma certa tradição do musical francês
de um Jacques Demy, por exemplo, os números musicais servem como extensão dos
diálogos dos personagens.  São como falas
cantadas que conferem ludicidade àquele conjunto que penderia para o suspense,
com coreografias que se querem simples, quase amadoras. 

Não deixa de ser também um filme de crescimento, rito de passagem que
transpõe uma ingenuidade do protagonista. Entre trapalhadas e fantasias, há
algo de muito particular e maduro nesse olhar de Rojas sobre a compreensão das
coisas do mundo dos vivos.

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