51º Festival de Brasília: Bixa Travesty

Linn da Quebrada e Jup do Bairro causaram sensação no Festival de Brasília. Não era para menos já que o objetivo de vida das duas artistas parece esse mesmo: causar estranheza, provocar, abalar estruturas e fazer ruir o conservadorismo. Lacrar, no fim das contas. E para elas, lacrar significa muitas coisas: afirmar-se como sujeitos em transformação, (re/co)existir em um país tão cruel com transexuais, deixar à mostra, sem pudores, o corpo negro, a língua ferina e a voz militante. É assim que elas buscam ampliar o pensamento e as discussões sobre gênero, transgeneridade, homofobia, preconceito, intransigência; enfim, desconstruir um imaginário que recai perversamente sobre um indivíduo trans.

Elas fecharam a mostra competitiva do festival com a exibição de Bixa Travesty, longa dirigido por Cláudia Priscila e Kiko Goifman, que tem Linn, mais do que Jup, como farol. Priscila, ao apresentar o filme no palco do Cine Brasília, alertou: “esse não é um filme sobre a Linn da Quebrada, é um filme COM a Linn da Quebrada”. Não porque ela seja também roteirista do filme, mas está implícita aí uma proposta que não é a de simplesmente revelar a persona Linn (embora acabe o fazendo de muitos modos), mas antes o de dar a ver e ouvir o que ela tem a dizer e mostrar.

De certa forma, o filme pega carona na dimensão performática, contestadora e politizada que já está presente com muita força no trabalho da rapper. Entre conversas e aparições performatizadas, o filme utiliza muitas imagens de arquivo e alguns registros de shows e apresentações das artistas que tomam bastante tempo do filme, e não são necessariamente méritos dos realizadores.

Mas há pelo menos duas operações narrativas que conferem certa cadência ao longa: a primeira diz respeito às cenas do cotidiano de Linn, os momentos em que a câmera acompanha os passos dela fora dos palcos; e aí Linn está sempre conversando com alguém (amigos, a mãe, Linniker ou a própria Jup). Com isso o filme permite que ela exponha suas ideias e pontos de vista sem a necessidade das tradicionais entrevistas documentais – e tradicional é tudo que Linn não é. Por outro lado, existem momentos que se assemelham a tais entrevistas, mas acontecem dentro de um cenário de estúdio de rádio, com Linn falando diretamente para a câmera ou interagindo com Jup, como se estivessem apresentando um programa e falando para o “ouvinte”. Essa seria a segunda operação que torna a conversa mais aprazível e menos rígida formalmente.

Tudo isso faz de Bixa Travesty um filme muito dialógico e, consequentemente, torna-se uma experiência de escuta importante. Antes de querer dizer algo sobre Linn e as questões sobre as quais ela milita, sobre seu trabalho e tudo aquilo que ela representa, o filme pretende condensar os discursos que ela profere (na sua fala, no seu corpo, na sua música) e nos apresentar uma personagem forte, complexa, de mente e corpo abertos, pulsante, em transformação (ou como ela mesmo diz, se trans-tornando a cada dia).

Existe ainda uma terceira opção narrativa, não tão bem sucedida assim: há uma luva metálica e icônica que pertencia a Ney Matogrosso e agora é de Linn, usada nos seus shows. Mas ela perdeu a luva, não a encontra dentro da bagunça de sua casa. O filme tenta fazer disso um fio narrativo que serviria como processo de busca, não só pelo objeto em si, mas pelo de simbólico que há nela – a luva como representação de um empoderamento herdado, de uma luta continuada, passada adiante. Mas o próprio o filme, ou as circunstâncias do real, não permitem que este recurso ganhe força, e talvez por isso nem o próprio filme lhe dê tanto destaque, ainda que faça disso uma proposta beirando o ficcional dentro do documentário.

Risco maior é quando, nesse processo de entrega para a câmera (ou as muitas câmeras que captaram Linn, dentro e fora dos palcos), o filme expõe a fragilidade dela quando se tratava de um câncer. Mesmo numa maca de hospital, de cabeça raspada e mais magra, Linn não deixou de ser um corpo responsivo e transgressor – são incríveis as cenas gravadas por ela e por amigos no quarto ou no banheiro do leito hospitalar, provocando a câmera, performatizando em cima da doença, expondo explicitamente um corpo frágil que ganha força imediata pelo poder da exposição – que é também confronto. Trata-se de performatizar uma luta, algo que tem sido sua batalha constante, incansável, dia a dia. Bixa Travesty é o retrato de uma lacração.

Bixa Travesty (Brasil, 2018)
Direção: Cláudia Priscila e Kiko Goifman
Roteiro: Cláudia Priscila, Kiko Goifman e Linn da Quebrada

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